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Vitor Bento

Passatempo de férias

23/07/12 00:02 | Vitor Bento 



Experiências no âmbito da economia comportamental, destinadas a testar o funcionamento dos códigos morais, mostram que, quando uma determinada acção envolve dinheiro vivo, as pessoas são moralmente muito mais sensíveis do que quando a mesma acção utiliza outros meios de valor equivalente.

Por exemplo, se alguém desviar 50 euros da caixa da empresa, essa acção será por todos considerada moralmente repreensível e, como tal, sancionável. Mas se o mesmo valor for desviado na forma de fotocópias tiradas para uso pessoal, já poucos consideram tal acto como moralmente errado e, se o considerarem, consideram-no muito menos grave do que o desvio de dinheiro (embora o dano causado à empresa seja exactamente igual).

O ponto relevante é que acções com um valor intrínseco (objectivamente) equivalente, podem ser julgadas moralmente de modo diferente, se se apresentarem sob formas diferentes. Desde que a forma utilizada seja capaz de, pela sua aparência e capacidade de, desfocando os juízos subjectivos, "suavizar" o valor objectivo da acção.

Gostava agora de convidar o leitor a testar este princípio com alguns exemplos, meramente hipotéticos. Suponha que os gestores de uma empresa pública iam a um casino e apostavam na roleta umas centenas de milhões de euros do dinheiro da empresa, perdendo-os. Qual acha que seria a reacção social. O coro mediático invectivaria tal comportamento, exigindo rigorosas investigações e o correspondente sancionamento dos responsáveis. E as autoridades levariam o caso às últimas consequências.

Agora suponha que os mesmos gestores perdiam idêntico valor em operações puramente especulativas (absolutamente desnecessárias à empresa), realizadas com sofisticados derivados financeiros e tendo como contrapartida bancos de grande renome internacional. Qual acha que seria a reacção social? Já começa a ter dúvidas, não é? (Apesar de as operações em causa serem, tudo espremido, equivalentes a jogar na roleta, apostando tudo no vermelho e sair o preto).

E, se em vez de uma única empresa, tivessem sido várias e os prejuízos resultantes amontassem a milhares de milhões de euros? Talvez o mais provável fosse não acontecer nada, não é? As autoridades de fiscalização e investigação provavelmente nem saberiam como pegar no caso. Afinal, se as formalidades processuais tivessem sido cumpridas, não se tratando propriamente de dinheiro, mas de um instrumento financeiro (ainda por cima dos mais sofisticados e só acessíveis às grandes elites financeiras), já não seria bem a mesma coisa do que jogar dinheiro público no casino. E ninguém roubara nada. Além disso, houve uma crise financeira internacional onde muita gente perdeu dinheiro. Foi azar! Se não fosse a crise, a sorte teria certamente sido diferente... Portanto, ninguém teria sido responsável pelo desastre, foi só um azar da vida. Os contribuintes acabariam por pagar o prejuízo, caladamente, diluindo-o nos "custos da crise".

E o coro mediático como se interessaria por tal história se, ainda no espaço das coisas hipotéticas, não envolvesse alvos de estimação e o país estivesse pendente de descobrir fundadamente se as penas que os ministros usam nos chapéus eram falsas ou verdadeiras? Afinal, se até Constantinopla se deixou perder porque, prioridades são prioridades, e como seria possível defendê-la sem primeiro esclarecer a dúvida sobre o sexo dos anjos?!

Agora, leitor, imagine se tudo isto fosse verdade... Boas férias.
____

Vítor Bento, Economista




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