O próximo ano será certamente um ano difícil para a grande maioria dos portugueses e de dificuldades quase inimagináveis para uma infelizmente já larga faixa da população.
Do governo do Estado ao governo da grande maioria das empresas, há uma focalização compreensível no combate à crise. Neste quadro, as decisões difíceis sucedem-se, com reflexos muito negativos na vida das pessoas e as más notícias vão tomando conta do quotidiano. Não haverá nem caminhos nem soluções muito diferentes para ensaiar, mas há porventura sinais distintos que podem ser dados.
A nível de Governo se é naturalmente crucial assegurar-se o cumprimento do défice e demais medidas acordadas com a ‘Troika', é também importante ir mantendo viva a esperança de dias melhores. Não é preciso martelar tanto no anúncio de objectivos de reestruturação e mudança. Que são necessários, mas que apenas auguram no curto prazo mais e maiores dificuldades e que não geram adesão. Importa indo concretizá-los com doses sábias de determinação e contenção verbal. E há antes que ganhar espaço para a promoção de realidades motivantes, positivas, portadoras de esperança que encontramos, apesar de todas dificuldades, um pouco por todo o lado. Será que não se consegue articular um discurso mais mobilizador centrado no turismo, que não se viu, a partir, por exemplo, do recente reconhecimento do fado como património mundial ou que até Agosto as dormidas de estrangeiros em Portugal eram superiores em dois milhões às registadas em 2010? Não se trata de esconder a realidade, difícil, mas apenas de dar alento a partir de uma pequena parte da realidade que promete um futuro mais positivo.
E nas empresas, na maioria pressionadas pela redução de custos que inevitavelmente se reflecte nos vencimentos e nos empregos, há também várias formas de se minimizar a perspectiva sombria e negativa do dia-a-dia. Apesar de dever ser um mandamento de gestão para todas as épocas, nesta mais do que noutras de maior prosperidade, dever-se-á canalizar ainda mais esforço e tempo ao envolvimento e reconhecimento das pessoas nas organizações. Às vezes basta um pequeno gesto de reconhecimento por uma iniciativa ou uma ideia, a auscultação de uma opinião, ou a participação num qualquer grupo de trabalho virado para a melhoria e desenvolvimento da empresa para, sem que tal signifique maior segurança ou tranquilidade quanto ao futuro, se possa ao menos olhar para a nossa vida profissional e, por extensão, para a nossa vida, com outra perspectiva e ânimo.
Não há certamente milagres que se possam fazer nem boas notícias para espalhar aos quatro ventos. Mas seguramente que pode haver um empenho acrescido de cada um em contribuir com partículas de estímulo, de esperança e de motivação para um horizonte mais desanuviado.
Um bom natal a todos os leitores do DE.
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António Gomes Mota, Professor na ISCTE Business School
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