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Pedro Adão e Silva

Paradoxos sindicais

17/03/09 00:01 | Pedro Adão e Silva 



A manifestação da passada sexta-feira deu azo às habituais acusações de manipulação política do movimento sindical. Mas haverá algo de novo nas últimas contestações? Estamos a assistir a um alargamento da base de apoio do movimento sindical ou, pelo contrário, é uma história com trinta anos?

O mundo sindical português é feito de paradoxos. Enquanto os trabalhadores portugueses atribuem muita importância aos sindicatos na defesa das condições de trabalho, mais de 2/3 não se encontram sindicalizados. Estes dados coexistem com valores muito baixos para a conflitualidade laboral: quando questionados se já fizeram uma greve, mais de 80% dos trabalhadores portugueses afirmam nunca o ter feito. Não por acaso, este padrão tem levado a que, com a excepção da administração pública, se tenha verificado uma diminuição acentuada do número de greves, combinada com uma segmentação crescente dos sectores onde ocorrem (metade das greves são na indústria transformadora). Ainda que seja avisado ter algumas precauções quanto à comparabilidade dos dados europeus, este contexto explica que, quando analisados os dias de trabalho perdidos por conflito laboral, Portugal apresente dos valores mais baixos da União Europeia.

Contudo, como ficou demonstrado mais uma vez na sexta-feira, a aparente baixa relevância dos sindicatos no mundo laboral coexiste com uma muito significativa capacidade de mobilização política do movimento sindical. Enquanto a conflitualidade laboral não é vista como a melhor forma de superar os problemas no mundo do trabalho, a contestação política de base sindical tem uma grande capacidade de mobilização de massas.

A manifestação da CGTP é um exemplo paradigmático: não dependeu de convocação de greves, nem assentou em reivindicações do tipo laboral. A resolução que convocava a manifestação apontava para um "mudar de rumo: mais emprego, salários e direitos". Um programa político que, ao mesmo tempo que implica uma mudança radical, não passa de um enunciar vago de princípios. Aliás, no que é mais um paradoxo, a CGTP tem revelado uma capacidade de mobilização superior em torno de programas políticos amplos do que quando o faz em torno de reivindicações concretas. Basta recordar que quer a nova lei de bases da segurança social, quer o novo código do trabalho, foram muito criticados pela CGTP mas não foram alvo de manifestações populares tão intensas.

Este tipo de afirmação do movimento sindical é arriscado. Ao mesmo tempo que desvaloriza o papel dos sindicatos na defesa concreta dos direitos laborais, politiza a sua acção a níveis que, aumentando a sua capacidade de mobilização, circunscrevem-na a uma base de recrutamento estanque. Independentemente do número de manifestantes que esteve presente em Lisboa, a politização da mobilização sindical restringe este movimento a uma contestação de base política, com efeitos perversos para a afirmação sindical. Aliás, Ulisses Garrido e Carlos Trindade, dois dirigentes não-comunistas da CGTP, chamavam a atenção há meses num artigo no Público para os riscos de uma afirmação sindical baseada num "activismo radical de fracos resultados" e da necessidade da "vida sindical obter sucessos, de infundir confiança aos trabalhadores através da resolução dos seus problemas concretos", (...) "acordando soluções, compromissos, entendimentos".

Dá-se o caso de que, com o aproximar de várias eleições, se intensificará a mobilização sindical através de um activismo radical. Terá esta estratégia resultados? Do ponto de vista eleitoral, certamente que sim. Tendo em conta que os bons resultados eleitorais dependem mais da capacidade de mobilizar o próprio campo do que de captar votos noutros partidos, os partidos que cavalgam esta contestação não deixarão de beneficiar da transformação de movimentações sindicais em mobilização política.

Será isto bom para a promoção de um movimento sindical autónomo em Portugal, apostado na negociação? Claramente não. Mas convém perceber que a contestação a que assistimos, sendo resultado imediato da crise económica e social, tem raízes bem mais profundas. Entre estas, a convergência entre o acantonamento de tutela política da CGTP e o desenvolvimento de um clima anti-sindical, em parte fruto de uma confrangedora ausência de estratégia sobre o papel dos sindicatos em Portugal da parte do PS. Na verdade, nada de significativo está a mudar no mundo sindical português. Estão sim a cristalizar-se tendências de trinta anos que limitam a busca de soluções negociadas para a regulação da economia política portuguesa.
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Pedro Adão e Silva, Professor universitário


Comentários

FT, | 17/03/09 07:46
Senhor Professor Pedro Adão e Silva: Mas acha que o PCP evoluiu alguma coisa desde o 25 de Abril de 1974? Seja realista. A cassette é a mesma e assim continuará por muitas voltas que o mundo possa dar.


JJC, | 17/03/09 07:49
Muito bom, como é constume :)


NapoLeão, | 17/03/09 09:03
O camarada Adão pode ficar "azedo" com a dimensão da manifestação. Como ao fim do mês "pinga" o vencimento religiosamente na sua conta bancária, por muita investigação que faça nunca saberá o que vai na alma daqueles que contam os tostões para sobreviver. E este é o nosso eterno problema. Temos muitos teóricos a "governar e legislar" sem noção das coisas da vida !


Verdi, | 17/03/09 11:04
O mundo sindical deixou de existir....em Portugal e no resto do mundo ! É pena mas a verdade é que os sindicatos deixaram de ter força ! E também não ajuda que o Presidente do CGTP se passeie pelos melhores restaurantes de Lisboa ! Grande exemplo !


paulo, | 17/03/09 12:33
ESTES SINDICALISTAS PORTUGUESES PRECISAM DE UMA VASSOURADA BEM GRANDE.ESTAO CONGELADOS EM 1974.


João, espariz | 17/03/09 12:47
Razão tem o sr.NapoLeão


LOPES CARLOS, Bruxelas | 17/03/09 13:13
Os Sindicatos são uma Parte Essencial do Diálogo Social e este é um elemento fundamental do Modelo Social Europeu e um Instrumento de Boa Governança.


LC, | 17/03/09 14:54
So gostava de saber porque magoa tanto os sindicatos? porque será que nunca se ouve palavras negativas paras as associaçoes patornais, que diabilizam os colaboradores e constantemente pedem mais apois estatais. Dessas niguem fala.
Ninguem fala também nas empresa em que não ha dinheiro para umas coisas mas para carros e casas dos patrões Há sempre.
Pergunto eu, com tanta antipatia será que os sindicatos acabaram?


Realista, Porto | 17/03/09 15:19
Subscrevo o comentário de <Napoleão>. Porquê 200.000 pessoas numa manif da CGTP? Porque ha muita gente com dificuldades e não têm outra maneira de se manifestar. Não desvalorize a manif discursando sobre o sindicalismo. Não é isso. É descontentamento genuino, para alem dos partidos e dos sindicatos.


Diogo D., | 17/03/09 15:55
o petiz a rebeliar-se. muito bem.


Verdi, | 17/03/09 16:24
Lopes Carlos, Bruzelas : "diálogo social" ? "Modelo social europeu" ? "Boa Governança" (não existe a palavra; ou diz, "Boa Governação" ou "Good Governance") ???? Onde é que V. Excia. tem andado ?? Não por cá concerteza, nem sequer pelo mundo real. Há, claro, Bruxeleas !! Está explicado !!


F.Saldanha, cascais | 17/03/09 16:50
É isso tudo e mais o fenomeno de que os ML ficaram na Europa sem telhado e querem montar na Europa uma sede e Portugal velho pequeno e pobre vem mesmo a calhar. Talvez uma coisa tipo Cuba.Vamos ver o que acontece.


dpsilva, Lisboa | 17/03/09 17:06
'O descontentamento genuino' de que alguns falam está bem espelhado em meia manifestação com bandeirinhas da função pública. Ora os funcionários tiveram um aumento de 2,9%, e, muito melhor do que isso, têm o emprego garantido. São estes os famintos? Não me façam rir! Foi de facto uma grande manifestação política, como outras, destinadas a derrubar o governo Sócrates que foi o único que tentou pôr a trabalhar com rigor muita gente que quase nunca fez nada na Administração e que agora no fim do ano tem o chefe à perna para lhe dar uma nota em função do trbalho feito e da qualidade do mesmo. O PCP e o Bloco sabem que um governo de direita nunca tinha coragem de enfrentar esta situação, como é evidente, por isso a esquerda radical prefere a direita no poder, porque é mais fácil travá-la. O caso dos professores é paradigmático e o mais obsceno.


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