Os recentes episódios em torno do ministro dos Assuntos Parlamentares vieram expor o estado de decadência ética e moral em que caiu o nosso sistema político-partidário.
Imagino como se devem sentir os nossos constituintes de 75-76, os que com ardor e sacrifício procuraram por entre o turbilhão do PREC edificar em Portugal um regime democrático, politicamente plural e - acrescento eu - capaz de produzir elites qualificadas e eticamente sólidas, capacitadas para a gestão do bem público e preparadas para o escrutínio democrático, do quarto Estado e da sociedade civil bem informada, respeitando o primado da liberdade de expressão e da não intervenção na independência dos órgãos de comunicação social. Como devem analisar o actual processo de acesso à elite política, esses nossos constituintes. Eles que foram exilados políticos, perseguidos por um regime autoritário-fascista, fugidos de uma guerra colonial sem sentido. Que se licenciaram no exílio forçado, que se qualificaram politicamente na clandestinidade e se especializaram na defesa de valores políticos assentes em pressupostos ideológicos sólidos. Sem direito a equivalências baratas ou licenciaturas de fim-de-semana.
Os "casos Relvas" pouco tem a ver com o percurso mitificado dos nosso fundadores. Simbolizam antes a geração de "chicos espertos" que, já durante o século XXI, chegou ao poder. Provêm maioritariamente das jotas, chegam a deputados de quarta fila durante a década de 80, com 20 e poucos anos, e rapidamente descartam quaisquer qualificações académicas em detrimento de uma actividade política rapidamente recompensadora. São recrutados com o secundário completo, sem que o sistema os obrigue à conclusão de um grau académico, rapidamente se tornando protegidos e/ou afilhados, categoria que geralmente acumulam com a de cacique empenhado e que lhes possibilita a obtenção de lugar de destaque nas hierarquia da jota e/ou do aparelho partidário. Depois, quando fora do Parlamento, e da intervenção nos "Passos Perdidos", são encaixados em empresas amigas, escritório de advogados amigos ou no sector Estado amigo. Até regressarem a São Bento e, imaginem, ao Governo de Portugal. Tudo dentro da normalidade construída e cimentada nos últimos 30 anos da democracia portuguesa pelos partidos do arco governamental (porque nestes casos não há ideologia que aguente). Assim não estranha a inconsequência e impunidade política. Ou, o arranjinho para a empresa do amigo, a licenciatura aos 40 anos ou a mania do controlo da comunicação. Afinal, Relvas mais não faz que reproduzir um padrão de comportamento tantas vezes utilizado e reutilizado por uma geração de chicos-espertos que, aproveitando a sedimentação do nosso sistema político, e a entrada de Portugal na CEE, se especializaram na permanência permanente (redundância deliberada) na órbita do sistema, assim fazendo uma vida.
E enquanto esta caravana passa, certamente que muitos dos de 75 levam as mãos à cabeça questionando-se: "como foi isto possível" (os puros); enquanto outros lavam as mãos e batem na cabeça dizendo: "como pude eu fazer isto possível" (os padrinhos).
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José Reis Santos, Historiador
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