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Arte

Os músicos falham, os ‘ratings’ também

Luís Reis Pires  
03/02/12 14:04

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Um professor de Economia usa experiências estatísticas ligadas à Arte para explicar porque falham as agências de ‘rating’.

Há alguns anos, a maior parte das pessoas não sabia que existiam ou para que serviam. Hoje em dia, não há quem não fale delas, quase sempre em tom pejorativo. As agências de ‘rating' saltaram para a ribalta com a crise do ‘subprime' e continuam a ter papel preponderante na crise do euro. Mas será que a Moody's, a Standard & Poor's e a Fitch conseguem fazer uma avaliação correcta do risco dos países? Victor Ginsburgh, professor de Economia da Arte em Bruxelas, acredita que não. E usa violinos e patinagem artística para explicar porquê.

Alvo de críticas por terem atribuído nota máxima a bancos que dias depois viriam a falir, as agências de ‘rating' são agora acusadas do contrário: estão a dar notas demasiado baixas a países que não o merecem, minando a confiança dos investidores nessas economias.

Quem as defende, aponta quase sempre o mesmo argumento: elas têm informação estatística e critérios quantitativos para avaliar cada país. E, lá está, a matemática não falha.

Mas a frieza dos números esbate-se com um simples violino. Claudia Fritz, uma investigadora que estuda a acústica dos instrumentos, realizou uma experiência para perceber a grande diferença entre o som dos famosos violinos "Stradivarius" e os violinos modernos. A conclusão é caricata: se há, nem os músicos profissionais a conseguem descobrir.

Fritz pediu a 21 violinistas profissionais, com idades entre os 21 e os 65, e que tocavam violino há pelo menos 15 anos, para se submeterem a um teste. Cada um devia tocar em seis violinos diferentes (dois ‘stradivarius', um violino da primeira metade do século XVIII e três violinos modernos) tocados em sequências de dois. Depois, pediu a cada músico que identificasse os instrumentos e que dissesse qual levaria para casa. Resultado: um dos ‘stradivarius' praticamente nunca foi escolhido. E entre os antigos e os novos, não houve nenhum que se destacasse como sendo "o melhor".

Pegando neste estudo, Victor Ginsburgh escreveu um artigo intitulado "Porquê esperar que a S&P, a Fitch e a Moody's saibam distinguir o lixo, quando músicos profissionais não conseguem distinguir entre um ‘stradivarius' e um violino normal?". Professor de Economia da Arte, Ginsburgh reconhece que as agências de ‘rating' têm informação privilegiada e dados matemáticos, mas que isso não chega para garantir uma avaliação correcta. "Elas [as agências] têm informação, tal como os violinistas tinham. E, tal como eles, não têm a informação toda. É difícil não errar quando se toma uma decisão sem a informação toda", diz.

Não tem nada contra qualquer uma das agências, mas lembra que todas cometeram um grande erro, que agora tentam compensar com outro. "Primeiro, na crise do ‘subprime', deram ‘triple A' a instituições que faliram dias depois", recorda, acrescentando que "agora têm medo de cometer erros semelhantes e em vez de sobreavaliação fazem subavaliação dos países".

A questão não é, por isso, a matemática falhar. Quem falha são as pessoas que usam a matemática. Porque qualquer ser humano, inclusive os génios da economia e da estatística, são afectados pelo ambiente que os envolve.

E a partir desta premissa percebe-se o porquê de as três agências mais famosas do mundo coincidirem nas notas dadas a cada um dos seus clientes, apesar de não as discutirem entre si.

Como? Imagine-se um concurso de patinagem artística. Entre a prestação de um patinador terminar e a pontuação do juri aparecer no ecrã, é questão de segundos. Ou seja, eles não têm tempo para conferenciar entre si, cada um faz a sua avaliação individual. "Mas nenhum júri quer ser identificado como o que deu uma nota completamente diferente da média", frisa Ginsburgh. Por isso, garante, o júri acaba por avaliar a prova de um concorrente com base na prestação que esse mesmo concorrente teve numa prova imediatamente anterior. "Cada membro do júri lembra-se da prestação anterior e da pontuação dada pelos outros membros. Com base nela, faz a avaliação da prova que acabou de ver, para estar mais seguro de que não foge à média".

Mas,nesse caso, estão as agências de ‘rating' completamente erradas? Ginsburgh diz que não e que os problemas da zona euro são reais. Devem mudar-se os seus instrumentos de análise? Ri-se. Os músicos da experiência de Fritz usaram instrumentos diferentes e a melodia foi a mesma.

Devem é mudar-se os incentivos das agências, que "são completamente errados". É que sejam artistas, economistas ou investidores, os seres humanos movem-se por incentivos. "Quem tem os incentivos certos, também pode errar e fazer as coisas mal. Mas quem tem incentivos errados não vai certamente fazer as coisas bem", frisa.





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