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João Duque

Os coelhinhos do Louçã

26/02/09 00:01 | João Duque 



O professor Francisco Louçã, deputado e professor de Economia, tentou ilustrar a esterilidade do capital na produção de riqueza através de um exemplo: "- Imaginem que se colocam dois coelhos numa cova.

De certeza que vão surgir coelhinhos se for um casal de coelhos. Mas experimentem pôr duas notas de 100 euros juntas uma com a outra numa caixinha. Acham que vão surgir notas de 20 eurosdessa caixinha? O Capital nada faz! É o trabalho que tudo faz!"

Depois de ouvir Louçã com a sua alegoria dos coelhinhos e notinhas, a dúvida que me assaltou foi a de saber se é lícito que um político possa perder o rigor conceptual mínimo que se exige a um profissional da sua área de especialidade, apenas por esse facto. Será que um economista, professor catedrático de economia pode, no seu discurso às massas, esquecer o que sabe e ensina (ensinará?) para passar a usar as palavras sem qualquer rigor, em perfeito delírio demagógico, panfletário e potencialmente eleitoralista?

Seria lícito a um médico, em discurso político apaixonado trocar os "pés" pelas "mãos", o "nariz" pela "boca", o "encéfalo" pelo "intestino"? Seria lícito a um operário ou a um camponês político trocarem as "portas" pelas "janelas", a "bigorna" pelo "martelo", a "foice" pelo "ancinho"?

Se Marx ouvisse Francisco Louçã reprová-lo-ia liminarmente porque confundiu (deliberadamente?) dinheiro com capital. Recomendo ao professor Francisco Louçã uma releitura da sua "Bíblia", mais precisamente o 4º capítulo, livro segundo do primeiro tomo de "O Capital", para se reavivar de como o dinheiro tal como usado no seu infeliz exemplo, difere do conceito de capital.

Estou seguro que Trotsky não aprovaria que se deseducasse o povo, ou pior, que se usassem erradamente conceitos que foram conseguidos e limitados com muito esforço e dedicação pelos adeptos da economia marxista, para tentar cativar o apoio desse mesmo povo.

A esta sua intervenção apetecia-me lembrar-lhe o famoso texto de Leonard Read intitulado "I, Pencil" onde se mostra como nos dias de hoje ninguém sabe como é feito um simples lápis de grafite. A cadeia de intervenções e de equipamentos necessários para extrair o minério ou aparar a madeira é tão complexa, o capital exigido é tão elevado que um simples cidadão está bem longe de o conseguir produzir de modo independente. Daí a necessidade de juntar o esforço humano à potencialidade que lhe transmite o capital, independentemente da sua propriedade.

A esta sua intervenção apetecia recordar-lhe que apenas com coelhinhos dentro de um buraco, o deputado não conseguiria propagar a sua voz através de um sofisticado sistema sonoro, não poderia usar o conforto do seu ar condicionado na sala parlamentar, a rede de computadores para receber e emitir informação, nem a cadeia de televisão para lhe propagar a imagem e a sua mensagem.

Recentemente, a propósito da intervenção do Estado no caso BPN, Francisco Louçã insistiu em baralhar o conceito de "Capital Próprio" com "Passivo", coisa que qualquer aluno do 1º ano do curso de Economia é obrigado a saber para obter aprovação na mais básica disciplina de Contabilidade Geral, ou ainda trocar os conceitos de "Despesa" com o de "Investimento", coisa trivial para um estudante de Finanças Públicas do curso de Economia.

Esperarão os eleitores de Francisco Louçã outra coisa de um profissional como ele? Não terá ele obrigação de usar e saber interpretar bem e com a linguagem apropriada, os acontecimentos económicos e financeiros que lhe passam pelas mãos? Não será sua obrigação usar de modo adequado o vocabulário técnico de um economista, a bem da profissão que aprendeu, da universidade que o enquadra e promove, e do Estado que o sustenta?

Discordar de uma nacionalização não obriga a baralhar conceitos!

Porque das duas, uma: ou o professor Francisco Louçã não reconhece o conteúdo específico de cada palavra técnica que usa, o que é muito grave para um catedrático em Economia, ou conhece, mas não quer usar, a bem de demagógicas e populistas intervenções eleitorais.
____

João Duque, Professor catedrático do ISEG




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