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Fernando Gabriel

Os bárbaros

27/07/11 00:02 | Fernando Gabriel 



Depois de identificado o responsável pelos atentados em Oslo, a opinião publicada convergiu para uma representação caricatural, com variações de tom e de posicionamento ideológico: o sr. Breivik é um homem mau, de “extrema direita” –perdoem a redundância– um psicopata.

Ser-me-ia indiferente se o reducionismo da caricatura não constituísse um obstáculo à compreensão de uma dimensão menos imediata mas essencial dos eventos: a relação entre o conformismo e a violência. O primeiro-ministro norueguês Jens Stoltenberg declarou que a conduta do sr. Breivik era o resultado de uma "falha" do sistema educativo, que não estaria a estimular de forma eficaz os comportamentos que o sr. Stoltenberg entende serem adequados à "socialização" dos cidadãos. Esta tese é falsa e perigosa, porque a ocorrência episódica de actos de violência fanática é um dos resultados antecipáveis do dito processo de "socialização".

O distanciamento psicológico proporcionado pela máscara do psicopata torna mais fácil evitar algumas interrogações, sobre os efeitos da criação de uma cidadania conformista, da supressão contemporânea do heroísmo e sobre o propósito político da canalização de uma enorme quantidade de energia humana para actividades infantis. É que não obstante a natureza criminosa da sua conduta, o terrorista de Oslo não é o bárbaro: bárbaros são os que se apropriaram da educação e em nome de uma "visão" política a transformaram num processo de "socialização", destinado a fabricar material maleável para a construção dessa visão, quer se trate do objectivo de obter afluência, harmonia ambiental, ou igualdade. Uma educação subordinada à necessidade instrumental de desenvolver "recursos", ou à propaganda de um ideal abstracto, destrói o carácter individual e produz um empobrecimento intelectual através das gerações; nasce da imposição do conformismo e reforça-o. A barbárie da educação "socializante" ataca as linguagens do auto-entendimento -a história, a filosofia e a poesia porque visa a redução do homem à condição de instrumento e propõe a rebeldia auto-indulgente das crianças mimadas como metadona para o desejo de autonomia.

A confusão dos noruegueses perante o "drama no paraíso" seria menor se compreendessem que a afluência não é um seguro contra a barbárie mas pode tornar-se numa das suas manifestações e que nem o mais conformista sistema de "socialização" consegue sublimar todos os instintos de violência. Anulado o sentido de transcendência, restam poucas vias para os descontentes. Uma é a via contemplativa, prosseguida por Thomas Mann e centrada no comprazimento estético e lânguido pela decadência identitária. Outra é a via da acção fanática, teorizada por Georges Sorel e centrada na afirmação do poder regenerativo da violência. Aliás, os que procuram utilizar as vítimas de Oslo como "mártires" do multiculturalismo, deviam notar que Sorel percorreu com à vontade os discursos marxista, anarquista e fascista: no fanatismo da violência, a ideologia é meramente circunstancial. É por isso que o reforço da pressão do sistema de "socialização educativa" anunciado pelo primeiro-ministro norueguês e apoiado pelas boas consciências é um convite à repetição de eventos semelhantes. Um cínico diria que esse é o objectivo: criminosos como o sr. Breivik servem o propósito útil de dissipar a entropia acumulada pelo "sistema-fechado" do conformismo e o horror perante as consequências da violência fanática proporciona o pretexto ideal para o avanço continuado da "visão" política.
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Fernando Gabriel, Investigador universitário




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