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Sabia que a inspiração da PJ para baptizar a operação “Face Oculta” veio de uma casa de alterne? Nada é escolhido ao acaso nos nomes das investigações da Judiciária.
No Tubo de Ensaio da TSF, Bruno Nogueira protestou: a Polícia Judiciária precisa de um departamento que invente melhores nomes para as suas operações. É que, segundo o humorista, chamar Face Oculta a um caso cheio de caras conhecidas não lembra a ninguém. Pior: Face Oculta é, continua, o nome de um filme de cowboys de 1961, dirigido e interpretado por Marlon Brando quando os cavalos ainda aguentavam o seu peso. O que Bruno Nogueira não sabe (ou não quis dizer) é que Face Oculta é também o nome de uma conhecida casa de alterne de Aveiro, cidade onde o processo de que o vice-presidente do BCP, Armando Vara, é arguido foi desencadeado.
Mas Bruno Nogueira foi injusto. É que apesar de já estarmos habituados a alguma liberdade criativa da Polícia Judiciária na hora de dar nomes às suas operações (temos na história desta polícia uma "Primavera Adiada", um "Voo Picado", o "Apito Dourado", a "Coruja", ou a "Erva Daninha"), a verdade é que, segundo o director nacional adjunto Pedro Carmo, "o nome Face Oculta não é o nome oficial deste caso na Polícia Judiciária". Este nome "terá sido lançado nos jornais e alguém o terá começado a usar. Não houve baptismo". Até porque "quando há nomes de código para estas operações eles constam nos comunicados e não há, como qualquer pessoa pode confirmar no site da PJ, qualquer referência ao nome "Face Oculta" nos comunicados oficiais da PJ".
Mas a Polícia Judiciária admite que há nomes de operações que parecem tirados de um episódio do "Seinfeld"? Não se sabe. Mas sabe-se que sorri perante a evidência. "Não há nas instalações da PJ, ao contrário do que se possa pensar, um departamento onde esteja um criativo afecto à escolha de nomes para as operações", explica Pedro Carmo. Em regra, "o nome é atribuído pelo responsável directo pela operação e é uma forma de dar título a um conjunto de operações". Objectivo: "facilitar a comunicação." O tempo que as operações levam, a quantidade de informação partilhada e a necessidade de confidencialidade "acabam por justificar um baptismo". Caso contrário, seria como se em vez de usar o nome de uma pessoa para se referir a ela, diz o responsável, "usasse o número do bilhete de identidade". Não seria nada prático - além de que seria muito pouco interessante.
O baptismo acontece normalmente quando "as operações implicam uma preparação mais cuidada e envolvem um número determinado de pessoas". Podemos fazer apostas: se uma operação é baptizada de "Pássaros do Sul" não decorrerá no Norte. "Os nomes tendem a estar associados ao objecto da investigação e há razões operacionais para serem escolhidos", diz Pedro Carmo. A escolha não é um privilégio do director nacional da Polícia Judiciária, mas "há a preocupação de que não sejam escolhidos nomes impróprios".
A preocupação vem de longe. "Não é uma prática ancestral, mas é uma prática estabelecida. Fomos buscá-la às operações militares, em que também eram precisos níveis acrescidos de confidencialidade." E não é um exclusivo de Portugal. "Em Espanha a polícia lançou agora a operação Quimera", diz Pedro Carmo. No Brasil a prática também é vulgar: a Polícia Federal tem no seu currículo títulos como Operação Medusa, Operação Navalha, Operação Narciso ou Operação Freud. E também lá a polícia vai dizendo que os nomes surgem naturalmente.
O caso rosália
Podem ser nomes de animais, momentos da vida, até constatações - uma operação da Direcção Central de Investigação do Tráfico de Estupefacientes, "Primavera Adiada," chamou-se assim porque, apesar de planeada para terminar na Primavera, atrasou-se, esticando-se até ao Verão. Mas às vezes há surpresas. "Lembro-me da Operação Rosália, que ficou assim baptizada porque um dos operacionais casou durante a investigação e a mulher chamava-se Rosália", conta Francisco Moita Flores, ex-inspector da PJ. O actual presidente da Câmara de Santarém diz que "as investigações relacionadas com droga são as que mais recorrem ao baptismo, por terem acções consecutivas e precisarem de linguagem de código: "Usam muito nomes do Zodíaco, como Leão ou Escorpião." Moita Flores faz a cronologia: "Estes nomes foram importados dos teatros de guerra, depois passaram para as polícias e depois para a televisão." Hoje, acrescenta, "são importantes para a opinião pública, na medida em que chamam a atenção para as investigações."
Tudo começou com as FP25
"Desde a Operação Orion, das FP25, que quando se chega a esta vertente mais pública, quando a polícia sai do recato da investigação e se aventura pelas buscas, criam-se estes nomes", explica Paulo Pereira Cristóvão, ex-inspector da PJ, que durante anos esteve à frente dos processos mais mediáticos da Direcção Central de Combate ao Banditismo. "Mas a criação dos nomes não tem nada a ver com a necessidade da operações, são perfeitamente acessórios", defende. "É só uma questão de não ser prático referirmo-nos aos processos pelo seu número."
Paulo Pereira Cristóvão nunca esqueceu um nome: Falsa Solidariedade. "Era uma IPSS que estava envolvida em crimes de peculato e de abuso de poder. Devia trabalhar na ajuda a cidadãos com deficiência e afinal estava envolvida numa série de crimes." Se tinha graça? Tinha. Se tinha importância? Nem tanto. "Estes nomes são algo que interessa mais à comunicação social do que à polícia. Em termos orgânicos ou estratégicos da polícia não têm grande relevância."
Quando Bruno Nogueira fez a sua crónica na TSF, Paulo Pereira Cristóvão estava a ouvir rádio. Achou graça, mas não sabia que o humorista estava a ser injusto. Não é demais lembrar: para o bem e para o mal, o nome "Face Oculta" não é da responsabilidade da Polícia Judiciária. E mesmo que um dia, como diz o ex-inspector, o nome pegue tanto que as televisões façam directos à porta de um tribunal anunciando o início do "Julgamento Face Oculta", ninguém na PJ se pode gabar de ter tido uma grande ideia. Ou será que nessa altura já adoptou o nome?
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Comentários (5)
Quantas vezes não soltei uma gargalhada ao deparar-me com os nomes dados às operações da PJ. É que no meio de tanto crime, os inspectores da PJ ainda conseguem ter bom humor:)
tambem podia ter sido meia culpa, já que de todos os implicados parece que mais uma vez foi apenas um fulano a fazer tudo, os outros só se fala porque estavam na hora errada e no sitio errado
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