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Pedro Adão e Silva

Olhar para a frente

03/03/09 00:01 | Pedro Adão e Silva 



Há uma asserção que nos diz que o resultado das eleições legislativas depende da avaliação retrospectiva que é feita. Quando se escolhe o Governo avalia-se o que se passou e só em parte se escolhe o programa político para o próximo ciclo.

Não por acaso, tirando a excepção Santana Lopes, nunca um primeiro-ministro perdeu eleições legislativas em Portugal. A posição de primeiro-ministro candidato à reeleição tende a dar, por si só, um capital que serve para formatar os termos do debate. Será este o caso das próximas eleições legislativas? Bastará a José Sócrates para garantir a reeleição pedir aos portugueses que olhem para trás, projectando o futuro? Há sinais manifestos que tal não será suficiente.

Como tem sido repetido, a crise que enfrentamos é importada. Este facto inviabiliza uma responsabilização directa do Governo pelas suas manifestações domésticas. Contudo, a dimensão da crise é de tal modo avassaladora que tende a limpar os históricos políticos domésticos. Perante uma crise desta dimensão, o que os eleitores vão querer saber não é tanto o que foi feito até aqui, mas, sim, o que os projectos políticos em competição pretendem fazer no futuro. As próximas eleições não assentarão por isso, como tenderia a acontecer num contexto normal, essencialmente numa avaliação da actual governação anterior às respostas de emergência à crise, mas, sim, no que será sugerido como nova narrativa para o tempo novo que agora começa.

O tema da governabilidade é um bom observatório dos dilemas que o PS enfrenta. Ninguém questiona que somar instabilidade política à instabilidade económica e social é a última coisa que o país precisa. Mas como é que se transforma esta necessidade num discurso político mobilizador? Tanto mais que estamos perante um quadro de distribuição de intenção de votos atípico, que ameaça reconfigurar o espectro partidário.

Ao contrário do que acontecia, não estamos perante uma bipolarização pura. Como demonstra a última sondagem do Semanário Económico, tem-se consolidado a existência de três blocos. Um bloco à direita que, desde as europeias de 2005, tem dificuldade em ultrapassar os 35%, apresentando apenas flutuações internas entre PSD e CDS; um bloco à esquerda com intenções de voto em redor dos 20%, mas revelando uma tendência de crescimento (nesta sondagem, BE e PCP juntos têm 24.6%); e o PS com uma diferença de cerca de 10% para o segundo partido mais votado e a cerca de 5 pontos percentuais da maioria absoluta. Perante este contexto, o PS tem de fazer três coisas ao mesmo tempo, que ameaçam ser contraditórias: mobilizar o seu próprio campo eleitoral (aspecto decisivo para ganhar eleições); garantir que a direita se mantém fixa em redor dos 35%; e estancar as perdas à esquerda.

O caminho que foi consolidado no Congresso do PS assenta em dois argumentos: o PS como referencial de estabilidade e José Sócrates, de facto, único candidato a primeiro-ministro nas próximas eleições (até porque os partidos à direita aparentam ter como objectivo apenas retirar a maioria absoluta ao PS); "malhar" nos partidos à esquerda dos socialistas para estancar o seu crescimento eleitoral.

Enquanto o argumento da governabilidade e estabilidade serve para conter a direita, a ostracização dos partidos à esquerda visa desmobilizar o voto de eleitores tradicionalmente socialistas no BE e no PCP. Este caminho assenta num equilíbrio de filigrana.

Desde logo porque o que justifica hoje uma maioria absoluta não é a memória recente da instabilidade com Santana Lopes. O que está em jogo não é uma avaliação do candidato incumbente, mas, sim uma projecção de uma situação de ingovernabilidade futura, quando o que os eleitores hoje têm presente é a experiência recente de uma legislatura inteira de maioria absoluta. Depois, porque se os ataques ao BE e à sua repulsa compulsiva em relação ao poder são eficazes na mobilização do campo socialista, a verdade é que é duvidoso que, por si só, sirvam para recuperar o voto de protesto de eleitores tradicionalmente PS.

Se a isto somarmos que dificilmente as eleições se podem transformar numa avaliação das reformas dos últimos anos, parece-me incontornável que o aspecto decisivo será a capacidade de tornar a estabilidade política uma necessidade do futuro e, acima de tudo, uma discussão sobre quem tem melhores respostas para enfrentar a crise. Uma crise tão diferente que o histórico recente tenderá a ser apagado. Espera-se, por isso, que os partidos sejam capazes de olhar para a frente. Serão?
____

Pedro Adão e Silva, Professor universitário


Comentários

Zé Cardoso, | 03/03/09 08:08
Não, a crise em Portugal não foi só importada, ela já existia, mesmo que o governo a tenha tentado camuflar até à última. Há anos que muita gente sente na pele as dificuldades. Afinal tanta reforma, tanto modernismo, tanto apertar de cinto e tanto simplex, para quê? A minha avaliação é negativa, e por isso com o meu voto não vai haver mais maiorias absolutas!


LL, | 03/03/09 09:48
Concordo em pleno que tem "...sido repetido, a crise que enfrentamos é importada...". Mas não é por repetirem muito essa mentira que dela fazem verdade. Existe de facto uma crise financeira e económica mundial, mas que se soma a uma crise exclusivamente portuguesa que sucessivos governos desde António Guterres não conseguem combater eficazmente. Desde os tempos de Cavaco Silva que não se sente o país progredir de forma acelerada, para convergir com os nossos pares europeus. Aparte uns raros casos heróicos a economia nacional está amorfa e anémica. Tenho por certo que tal se deve ao sistema tentacular do estado que condiciona a maior parte da actividade económica. Consumindo quase metade da riqueza produzida o estado é omnipresente e incontornável. O problema é que instiga más práticas, o que é evidente no recrutamento para as administrações das empresas de notáveis políticos. Na prática não se consegue fazer negócios sem o estado, mas ao fazê-lo as empresas saem do mercado livre e da concorrência e ficam presas ao compadrio. Resultado: grandes dificuldades quando tentam competir no mercado global, pois não há espaço nas administrações para políticos de todos os países onde tentam entrar…


Mopa, | 03/03/09 10:12
Ora aqui está um comentário "simplex"
O Zé Cardoso não gostou da maioria absoluta que nos governou. OK, mas o que pensa que poderá melhorar numa situação sem maioria (seja de quem for) ?
Acha que com cada um a puxar para seu lado se vão conseguir melhores resultados ?
E a crise não foi importada ...
Claro que em Portugal se vivia já uma situação económica difícil que se procurava combater começando inevitavelmente por equilibrar as contas públicas. Os dados internacionais não deixam dúvidas que esse objectivo foi atingido. Deveria seguir-se um período de governação em condições de estabilidade económica onde seria suposto começar a ver-se obra, fazendo crescer a economia.
Cai então a crise internacional que nem a má fé permite negar. Há que acudir aos "mortos e feridos" ficando para trás a projecção económica de fundo.
Não vejo por isso que possamos tirar conclusões tão simplistas.
Podia ter-se feito mais e sobretudo melhor, mas há muito não se via fazer tanto como foi feito.


olho vivo, porto | 03/03/09 11:05
a questão das prespectivas , ou seja se olhamos para frente ou para trás, tem haver essencialmente com uma questão de confiança. Olhar para trás significa poder ver algo que se fez, olhar para ferente tem haver com confiar em alguém que venha de facto a fazer.
Quem esta classe de politicos , quem pode olhar para frente com confiança naquilo que nos dizem ?


rr, | 03/03/09 11:06
Bom artigo!


CriseGrave, Porto | 03/03/09 12:42
Nos 4 anos que o Governo de Sócrates leva de exercício a sua acção tem-se centrado, sobretudo, em reduzir custos administrativos embora, nalguns casos, as consequências de tais decisões não tenham sido devidamente avaliadas. Ele foi o encerramento de escolas, hospitais, tribunais, agravamento das condições de atribuição das reformas aos beneficiários de todos os regimes de Segurança Social, agravamento das condições de acesso à saúde, agravamento das condições de atribuição às prestações sociais, incluindo ao subsídio de desemprego, de doença, subida dos impostos, dos medicamentos, etc. O exercício deste Governo caracterizou-se pela luta permanente contra a classe média, em que a aprovação do novo Código de Trabalho, que entrou em vigor no mês passado, é a cereja em cima do bolo.
Porém, as preocupações em reduzir custos e equilibrar deficit das contas públicas, deviam estender-se à classe politica e aos administradores de empresas públicas. O Governo devia ter tomado medidas no sentido de fazer a reforma administrativa que o país carece há muito tempo, integrando concelhos com menos de 3.000 eleitores e criar municípios com mais de 10.000 eleitores, uma vez que, nas últimas décadas, se assistiu a mudanças demográficas significativas no país. Além disso, o Governo podia aproveitar as reformas administrativas para reduzir para cerca de metade o número actual de deputados.
Estas iniciativas políticas para além de serem do agrado de toda a população iriam contribuir para reduzir as despesas da administração pública e ajudar a equilibrar o défice das contas públicas.


pedro, | 03/03/09 13:03
olhar para a frente com o governo que temos é a mesma coisa de dar um passo
para a frente e dois para trás.


amonino, Lisboa | 03/03/09 13:20
.
Em àrea e população pertencemos ao grupo da Suiça.
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Segundo a OCDE, em Portugal a carga fiscal foi de 36,6% do PIB ( 34% da S Social= 70,6% do salrio bruto de cada cidadão), na Suiça 29,7%.
.
Resulta um poder de compra interno superior dos Suiços que alavanca as empresas suiças para a escala mundial compensando pela via fiscal a fraca escala em àrea e população. Ao invés do resultado miserabilista do tecido Economico Português (desemprego, poder de compra pobre dos Portugueses, grandes empresas à pressão de concentração/monopolios na agua, luz, telecomunicações, alimentação etc).
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http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_tax_revenue_as_percentage_of_GDP
http://en.wikipedia.org/wiki/Tax_rates_around_the_world
http://www.youtube.com/watch?v=fIqyCpCPrvU
.
A Crise obriga a desatar esta velha embrulhada nacional que não nos resolve. Cada vez nos atrapalha e empobrece mais.


Diogo D., | 03/03/09 13:29
O facto de se repetir que a crise foi importada não altera a realidade. As causas da actual crise internacional, também se verificam em Portugal, p.e.:

i) deficiente supervisão bancária (BPN e BPP são dois tristes exemplos);

ii) o crescimento de bancos emissores de produtos derivados ( aquela “coisa” que não é regulada por nenhum organismo – nacional ou internacional). As operações de titularização de fundos tornaram-se receita mágica durante os primeiros 6 anos deste milénio. Chegada a hora da verdade, ups, antecipamos lucros que nunca iriam acontecer. Por outras palavras, criámos lucros sem gerar riqueza;

iii) agências de notação com uma enorme miopia ( o que permitiu o crescimento dos referidos produtos derivados, ninguém sabia muito bem de que activos derivavam mas as notas eram altíssimas, quantos A’s quer o senhor?);

iv) a relação quase comercial entre empresas de auditoria e os bancos auditados ( quem é auditado escolhe o auditor. E como o mercado é curto o auditor tem de ceder. Muitas vezes. Simples de corrigir, apenas com a criação de, p.e. um terceiro organismo que escolheria os auditores. O auditado tinha de se sujeitar. Quem não deve não teme. Este terceiro organismo poderia ser o Banco de Portugal. Esta ideia nada tem de brilhante, está bem gasta até.).

Votamos sempre com base em expectativas. A reforma do sistema bancário é uma delas e terá um peso significativo no voto de muitos portugueses. Espero.


NapoLeão, | 03/03/09 15:35
Os "sábios" conselhos dos professores Marcelo, Freitas, Vital e do autor desta crónica o que é que acrescentam/melhoram ao nosso dia a dia ? Creio cada vez mais que quanto mais "pregação & legislação" só servirão para anestesiar a rapaziada e persuadi-la que "votar" na "elite" governante resolve alguma coisa ! A qualidade e seriedade das governações pouco diferem do negócio do futebol "à portuguesa" !


Amonino, Lisboa | 03/03/09 16:03
Desculpem em inglês mas fica mais fidedigno:

We MBAs are haunted by the thought that the tag really stands for Mediocre But Arrogant, Mighty Big Attitude, Me Before Anyone and Management By Accident. For today’s purposes, perhaps it should be Masters of the Business Apocalypse.

MBA’s masters of the apocalypse
If MBAs are all so clever, how come so many are now in disgrace?

http://www.timesonline.co.uk/tol/news/uk/education/article5821706.ece
.
Pois é.


WILDCARD, | 03/03/09 16:30
Este Zégritarias parece que quer desancar, leia-se governar à esquerda, no outro Zégritarias ... será dupla personalidade, bivalência, desespero, insanidade mental ou simplesmente um "político à portuga"?


Estarola, | 03/03/09 17:06
O que o Sr. Professor Pedro Adão e Silva se esqueceu de dizer é que foi um dos redactores da moção que o secretário-geral do PS levou ao último congresso deste partido, pelo que deveria ter feito a respectiva declaração de interesses. No entanto, de uma pessoa que diz que é injusto um contribuinte que ganha 4.000€ por mês pagar os mesmos impostos que um contribuinte que ganha 15.000€, sabendo que isso é completamente falso (apesar de pagarem a mesma taxa máxima, a matéria colectável é substancialmente diferente), não seria de esperar outra coisa que não afirmações populistas e demagógicas.


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