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Daniel Amaral

Ode às ‘eurobonds’

01/06/12 00:01 | Daniel Amaral 



Eu sei que a Alemanha não quer. E a Alemanha pode muito. Mas as pressões são tantas, e de tantos lados, que não é possível evitar a discussão sobre a emissão de ‘eurobonds’, que envolvem a dívida soberana dos 17 membros da Eurolândia, qualquer coisa como oito biliões de euros.

O objectivo é baixar as taxas de juro, mas há quem ganhe e quem perca, o que dificulta o debate. Vou procurar reflectir sobre o que se tem discutido até agora.

Os cenários constam de uma edição recente de ‘The Economist' e continuam actualizados. A primeira ideia era limitar a emissão de ‘eurobonds' a países que de facto necessitassem dela e para aplicar em investimentos seleccionados e por um curto período de tempo. Que países seriam esses, e de que investimentos se tratava, confesso que não entendi muito bem. Mas uma coisa parecia óbvia: entre fazer isto ou nada a diferença não era grande.

A segunda hipótese remetia para o Tratado de Maastricht, que esteve na génese do euro. As dívidas soberanas seriam divididas em dois blocos: até 60% do PIB pertenceriam a uma "zona azul" e, enquanto tal, beneficiariam da emissão de ‘eurobonds' e seriam objecto de uma garantia conjunta; acima de 60% do PIB pertenceriam a uma "zona vermelha" e seriam geridas pelos respectivos países. Não sendo perfeito, este cenário já fazia sentido.

O terceiro modelo também assentava no princípio das cores, mas com a sua aplicação invertida: haveria emissão de ‘eurobonds' apenas para as dívidas acima dos 60% do PIB. O que nos remetia para uma espécie de quadratura do círculo. De facto, 12 dos 17 países da zona euro têm dívidas superiores a 60% do PIB; e os cinco restantes, o grupo dos resgatados mais a Bélgica e a Itália, excedem mesmo os 100%. Como é que se gerem situações destas?

A posição de Angela Merkel face às ‘eurobonds' sempre foi muito clara: não, não e não! O que, em certa medida, se compreende. Se a Alemanha pode endividar-se a uma taxa de juro na vizinhança de zero, parece não fazer sentido optar por uma outra taxa que reflicta o risco médio da zona. É verdade. Mas o problema também pode ser visto por outro ângulo: se a Europa entrar em colapso, para onde vai a Alemanha canalizar as suas exportações?

A palavra ao bom senso.

DÍVIDAS SOBERANAS

Dos cumpridores...(Em % PIB) Aos resgatados (Em % PIB)
   

Fonte: Eurostat.

Há cinco países com dívidas inferiores a 60% do PIB: os do gráfico da esquerda mais a Eslovénia e o Luxemburgo. Já os países sob resgate estão muito vulneráveis: se a Grécia sair do euro, é bem provável que a Irlanda e Portugal vão pelo mesmo caminho logo a seguir. Mas o contágio pode não ficar por aqui. E, se chegar à Espanha e à Itália, ambos ‘too big to fail', o melhor é prepararmo-nos para a implosão do próprio euro. Está tudo em aberto...

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt




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