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29 Mar 2012
Luciano Amaral

O século chinês

Luciano Amaral

Os estranhos rumores a propósito de um hipotético golpe de Estado na China puseram-nos a pensar sobre se o regime chinês não seria mais frágil do que damos por adquirido.

As notícias não passaram da forma de rumor, mas reavivaram algo de que muitas vezes nos esquecemos: a China é uma ditadura. É, aliás, ainda o maior regime comunista à face da terra, mesmo depois de décadas de reformas económicas (mas não políticas), cujo grande resultado foi a criação de um bizarro comuno-capitalismo que ninguém entende muito bem.

Não há dúvida de que as reformas capitalistas trouxeram prosperidade. Mas elas não são senão uma parte da história. A outra parte continua a ser a da direcção económica central operada pelo aparelho comunista. Se o conjunto gerou riqueza, também escondeu muitos dos aspectos absurdos da economia chinesa. Um número revela muito: não se sabe ao certo quanto é a taxa de investimento na China, mas deverá andar entre 70% e 80% do PIB. Ou seja, de toda a riqueza gerada, apenas 20% são consumidos, enquanto os restantes são investidos nas mais diversas e disparatas actividades. Um dos resultados disto é algo que conhecemos bem: as famosas "lojas dos chineses", que brotaram no nosso País de Vila Real de Santo António a Caminha, vendendo canivetes que se partem à primeira utilização, lâmpadas que nunca acendem, plásticos que derretem ao sol. O modelo económico chinês não é muito mais do que isto: uma torrente de dinheiro usado de maneira ineficiente, uma mão-de-obra dócil e servil, e uma taxa de câmbio subavaliada, permitindo exportar em grande quantidade muita tralha, misturada com bons produtos, para os países ricos.

Desde o início da crise, em 2007-2008, incensou-se a economia chinesa por ter escapado aos seus efeitos. Mas a verdade é que não escapou: os mercados para onde a China vende são os países desenvolvidos; mas como estes foram muito afectados, e de forma a não travar o crescimento, o governo chinês orquestrou a substituição da procura externa por uma bolha imobiliária que, diz quem conhece de perto, é do tamanho do mundo. Só que a bolha parece começar agora a esvaziar, e traz insatisfação aos beneficiários do crescimento dos últimos anos. Daí aos "rumores" de golpe de Estado foi um instante.

Uma das vantagens de se andar cá há algum tempo é já ter visto o mesmo filme várias vezes: dos anos 30 aos anos 70 era a URSS que ia ultrapassar o Ocidente; dos anos 60 aos 80 era o Japão; desde os anos 80 é a China. Talvez seja melhor esperar para ver. As notícias sobre o século chinês são capazes de ter sido manifestamente exageradas.
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Luciano Amaral, Professor universitário

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