Sobre Cavaco, ainda. Quem amamentou o mito acorda em sobressalto. Com o saudosismo de duas maiorias absolutas: a primeira à conta do moralismo paroquial de Eanes; a segunda à conta do “monstro” que engordou uma classe média deslumbra da e dependente.
Cavaco Silva não transporta um pingo de dieta social. Pelo contrário. Ele é um modelo de gula social.
Chegou a Belém, onde predomina a política. Um desastre: duas investidas sobre os Açores que ninguém percebeu; uma maquinação ridícula sobre escutas e espiões em que o feitiço quase matou o feiticeiro; uma explicação sobre casamentos que rebelou a fraqueza da massa. E, agora, sobre a sua mercearia. Cavaco é um cepo político. Sempre foi.
Nesta arquitectura cega apagaram-se cumplicidades e convicções. Eis-nos, por ironia de um almanaque ilustrado, de regresso a Guimarães. Numa imagem real que amplifica um tempo em que o sorriso de condição não consegue impor-se. O Presidente deixou condicionar-se numa circunstância em que se exige o poder da palavra. Sem compromisso ou constrangimento.
Marcelo diz que Cavaco falhou o ‘penalty'. Discordemos: Cavaco viu a baliza aberta, sem guarda-redes, e quis ser ele a marcar. Quis receber a ovação do estádio e, desastradamente, acertou na bancada. Com estrondo e dor. Fica a nódoa. E o árbitro apitou para uma segunda parte longa e agressiva: a sucessão do Presidente.
Eis-nos, pois, num outro patamar. Numa dimensão que envolve Marcelo. O professor quer, sempre quis, ser candidato. E percebeu que para isso tem de engolir sapos. Cavaco é um deles.
Um sapo necessário face à dinâmica que a candidatura de Assunção Esteves, desejada pelo actual poder no PSD, vai assumindo. Ajudando Cavaco, Marcelo procura um cargo à sua altura. O de Presidente, claro. Assunção tem tempo. Marcelo, não. Ele sabe-o. E por isso é e será o melhor amigo de Cavaco.
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Raul Vaz
raul.vaz@economico.pt
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