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Pedro Adão e Silva

O resto da agenda

07/04/09 00:03 | Pedro Adão e Silva 



Mesmo os mais cépticos reconhecem o sucesso da Cimeira de Londres. Há boas razões para isso: temas que, até há bem pouco seria impensável que estivessem no topo da agenda, dominam hoje as discussões.

De um momento para o outro, a regulação, a transparência e regras sobre remunerações no sistema financeiro deixaram de ser temas marginais. Como sublinhava Will Hutton no Observer, esta reunião do G20 foi a consumação dos rituais fúnebres do capitalismo financeiro tal como ele existiu nos últimos anos, com as suas injustiças e ineficiências. Poder-se-á, com razão, sublinhar que, relativamente aos temas politicamente mais sensíveis, foram dados poucos passos concretos. Esta Cimeira deve ser vista como o começo de um processo, além de que, pela primeira vez desde o início da crise, de uma reunião deste tipo saíram conclusões mais ambiciosas do que as expectativas que estavam criadas (ex. o reforço financeiro do FMI). Há, por isso, boas razões para algum optimismo, mas há contudo um problema que persiste.

Mesmo que se avançasse muito na institucionalização da regulação global, que os estímulos à procura fossem bem mais significativos e que os recursos financeiros do FMI fossem ainda maiores, não seria nem suficiente para ultrapassar a situação em que nos encontramos, nem serviria para garantir que os desequilíbrios sistémicos não regressariam com igual vigor, passado pouco tempo. Há, na verdade, um tema que, sendo uma causa determinante da actual crise, tem, contudo, ocupado um papel marginal na agenda política.

Esse tema é o dos desequilíbrios crónicos entre países com excedentes e países com défices comerciais. Na verdade, não existe uma saída sustentável para a crise, enquanto persistir a clivagem entre, por um lado, países que podem estimular a poupança e uma disciplina orçamental rigorosa ao nível da despesa e, por outro, países que alimentam as importações à custa de desequilíbrios orçamentais, usados para mascarar défices comerciais.

Além do mais, estes desequilíbrios na balança global de pagamentos estão na génese da instabilidade financeira. Afinal, foram os fluxos financeiros entre países deficitários e países com excedentes, mas com moedas com câmbios fixos (a armadilha do dólar chinesa, como lhe chama Paul Krugman), que promoveram a proliferação de produtos financeiros, no mínimo, opacos.

As exportações da China, da Índia e da Alemanha - para dar os exemplos paradigmáticos - só são possíveis de manter aos níveis actuais enquanto os EUA, os países do alargamento ou Portugal alimentarem a procura. O problema é que este caminho não é sustentável ad eternum. Há naturais limites para que, por exemplo, a Alemanha se abstenha de fazer estímulos à procura interna, fazendo depender a sua política económica das exportações para países com dificuldades orçamentais (por exemplo, Portugal). Uma de duas coisas tenderá a acontecer: ou a bancarrota dos países que consomem ou, em alternativa, um arrefecimento repentino das exportações nos países com excedentes.

Aliás, a realidade já se está a encarregar de confirmar esta possibilidade. Como chamava a atenção Wolfgang Munchau no Financial Times, os países com défices significativos na balança corrente de pagamentos estão, neste momento, a cortar drasticamente o consumo de bens importados. O resultado é que o excedente combinado da China, Índia e Japão está a diminuir de forma impressiva. Com uma consequência: o comércio mundial vai colapsar a um ritmo mais rápido do que durante a "grande depressão".

O último ano ensinou-nos que não há verdades insofismáveis na economia - da auto-correcção dos mercados, à superioridade da natureza privada do sistema bancário, passando pelo controlo dos défices "elevados", todos os princípios sacrossantos foram caindo a uma velocidade vertiginosa. Resta um tema que tem estado afastado da discussão e que precisa de ser tratado de modo sério: o comércio livre.

Se o processo que se iniciou em Londres na passada semana dá motivos para estarmos moderadamente optimistas, é necessário que as próximas cimeiras do G20 introduzam na agenda o comércio global. Não se trata de fazer assentar a discussão na falsa dicotomia entre comércio livre versus proteccionismo, mas de ter uma discussão séria sobre como corrigir, na raiz, os desajustamentos globais de que hoje são vítimas as economias de todos os países. Quanto mais cedo se juntar este tema aos que já estão a ser discutidos, mais rapidamente será possível ultrapassar a crise. Seria impensável que o mundo tivesse de esperar por uma diminuição brutal das exportações alemãs ou chinesas para que alguma coisa fosse feita.
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Pedro Adão e Silva, Professor Universitário


Comentários

vg, | 07/04/09 00:22
Sou dos que pensam que há por aí visões catastrofistas, em excesso.A diminuição da procura é capaz de não ser um completo desastre,mesmo sem considerar que o negócio de viagens ao estrangeiro ,na Páscoa portuguesa vai melhor do que no ano passado


Fernando, | 07/04/09 02:36
Mudar hábitos com os mesmos vicios? Ou seja com as mesmas pessoas? Não acredito.
O que se viu no G20 foi o mesmo folclore de fotos, abraços, almoços, sorrisos, esposas a aproveitarem a boleia para irem até Londres comprar as ultima moda, etc.etc.




Estarola, | 07/04/09 08:40
Seguramente que o pouco de bom que saiu da cimeira dos G-20 foi por influência do nosso primeiro-ministro, a exemplo do que já tinha feito para baixar a taxa de juro refi do BCE. Ah, Ah, Ah...


Realista, Porto | 07/04/09 11:48
Estou de acordo com o artigo. Essa dicotomia entre os países que exportam (China, Alemanha, Japão) e os que consomem (importam) é importante. Mas há problemas que o mercado (sim o mercado também tem virtualidades) podia resolver se funcionasse bem. O problema é que não o têm deixado funcionar. Por exemplo a moeda chinesa é artificialmente baixa, não é o mercado que lhe dita o cambio. E a moeda chinesa explica muita coisa. Não é só o tradicional espírito de trabalho dos chineses. Depois os excedentes chineses, árabes, etc. deviam ser aplicados em meios de produção e estão a ser canalisados para a especulação pura e simples. A fkutuação do preço do petróleo, das bolsas, etc. não é normal. E é aqui que a reunião dos G20 ficou curta. É preciso acabar com a tal economia de casino (hedge-funds, short-selling, off-shores, etc).


NapoLeão, | 07/04/09 13:50
Na cimeira do G20 quer o Harrods quer o Sekfridges facturaram e facturara. Os "paraísos" fiscais continuarão mas com outro nome, Gordon Brown meteu "pimenta" nos negócios da City e Canary Wharf e Obama tentou promover o lançamento do próximo best-seller. O essencial será abordado na próxima cimeira e se o não for...marcar-se-á nova cimeira !


cdr, lisboa | 07/04/09 17:28
Excelente artigo e excelentes comentários.. excepto uns "estarolas" que são o que são!


jrdesiludido, | 07/04/09 21:05
Na generalidade concordo com o teor do artigo. Não seria melhor existir uma única moeda a nível mundial??? Mesmo o livre comércio tem que estar sujeito ao cumprimento de determinados princípios por todos. Se assim não for volta tudo ao mesmo...


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