Depois do vulcão chegou a verdadeira tempestade. Esta semana foi-nos sendo revelada e contra-revelada a verdade: o projecto Europeu padece de essência – solidariedade e união.
É uma unidade focada em umbigos próprios. Sobreviverá? Estamos em crise e só um projecto de salvação nacional fará da economia portuguesa viável - saberemos desenhar um plano anti-ciclo eleitoral? Os EUA são de esquerda mas estão lá longe, e o FMI é a mesma instituição balofa de sempre, que já destruiu mais economias do que salvou. Onde pára Joseph Stiglitz? Que volte...
O tal "rating", essa coisa estranha que junta sinaléticas e letras maiúsculas e que afinal, já se sabe o que é em qualquer café, deixa saber aos investidores internacionais se a dívida pública de um país é apetecível, ou não e quão tentadora é a sua compra. Tomou conta dos telejornais, e aparece servido com a bica e o pastel de nata, ao balcão na correria apressada a caminho do emprego. Até o primeiro-ministro teve de aceder ao líder da oposição, que ao fazer-se convidado de São Bento deu uma foto inédita aos portugueses: José Sócrates reunido, em nome da salvação nacional, com Passos Coelho. Não acredito no bloco Central, admito.
Não minimizo a situação. Mas talvez seja interessante saber quem leva a sopa e o terço às carpideiras que velam já o país, coitadinho, quase a receber a extrema-unção. O que vale é que mais uma semana e meia, chega o Papa e antes disso o Benfica é campeão.
Enquanto a desgraça da Grécia faz corar o Olimpo e o FMI começa a desenhar mais um brilhante plano de auxílio, a UE deixa-se a nu: não é unida, não partilha qualquer esboço de interesse comum, é um mercado livre de valor reforçado e uma união monetária que dá jeito. E com as eleições nacionais em andamento, a desgraça da Grécia, as carpideiras em torno de Portugal, os agoirentos a rondar Espanha e o dólar a proclamar-se moeda única do mundo, é tudo de somenos. Merkl tem eleições para vencer até 9 de Maio, e até lá paira sobretudo a ameaça da retirada. Brown é o antecipado perdedor de 6 de Maio, e alguém acha que o entediante Cameron fará outra coisa senão sorrir ante a desgraça da UEM, e guardar as libras debaixo do colchão? E o outro elo forte, a França, entre greves e protestos sociais, transformou-se numa Sarko-novela-cor-de-rosa que já ninguém consegue levar a sério. A estabilidade monetária, o sangue do sistema económico alemão, está hemofílica, e esbarra na irresponsabilidade francesa. Esta é a União Europeia? É este o grande projecto europeu?
Voltemos à nossa própria crise, que é tão nossa como o fado, o futebol e Fátima: veio-nos inscrita no ADN republicano. As nossas estruturas produtivas são precárias, nunca concretizamos senão planos de médio prazo, e perdemos sempre a mão-de-obra que interessava, fosse em fuga ao regime, para construir betão, ou a massa cinzenta que inventa soluções para o mundo livre. Desde 1976, tivemos um plano? Para além daquele que nos permitiu a adesão à então CEE? Choram mais alto as carpideiras enlutadas.
Mas do lado de lá do Atlântico, vem a risada. Ao lado dos títulos de dívida pública norte-americanos, os chineses têm agora uma prateleirinha especial para os europeus. Mais uma avé-maria sonora porque que as carpideiras sabem fazer o seu serviço.
Este é apenas o primeiro dia do resto de uma longa crise. Ou nos unimos e somos Europa, ou desligamos a tomada do sonho mítico da regulação.
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Marta Rebelo, Jurista
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