O credor está aí e observa: será Seguro capaz de seguir Proença? João Proença, um homem baço, iluminou-se. E deu uma lição. Somando inteligência e bom senso.
Com um pico de coragem - uns dirão que é generosidade, outros que se trata de ingenuidade. Um pico provocador. A esquerda ancorada num sindicalismo obsoleto ameaça queixa-crime; Torres Couto ameaça extinção. É evidente: não se conhecia acordo mais bonito do que o ‘flûte' com Cavaco em 1987. Sobra tempo, tempo para entranhar direitos e hábitos. A CGTP estrebucha. João Proença seguiu duas chaves de leitura.
Com ou sem a UGT a exigência da ‘troika' ia em frente. Ia com um dos lados (o patronato) e sem qualquer margem negocial para o outro lado (os trabalhadores). Ou seja, sem os sindicatos seria pior. E percebeu mais, explícito na entrevista ao Diário Económico: "Se houvesse conflitualidade social, arriscávamo-nos a cair na situação da Grécia". O acordo não mata a conflitualidade social. Pelo contrário, dá gás à CGTP. Mas, convenhamos, não é a mesma coisa. E isso, para memória futura, fica a crédito de João Proença.
No partido de Proença vigora a balbúrdia. Enquanto Zorrinho diz que é obrigatório fiscalizar politicamente o orçamento, floresce uma aliança com a bancada evangelista e formaliza-se ao Tribunal Constitucional a fiscalização sucessiva da lei orçamental. No meio da ponte, Seguro resiste. Virá o tempo em que terá de afirmar uma opção. Entre a tagarelice paroquial de um resquício e a lucidez de João Proença. Claro que é mais fácil ver do que fazer: o orçamento é recessivo, o acordo social não trava, por si, o desemprego. Sem crescimento não se vai lá. Pois não, mas só se ganha este jogo - renegociar prazos e condições - com um carteio irrepreensível.
Acreditemos que entre a sueca e o bridge, António José Seguro joga poker. Frio, capaz de um ‘bluff' granítico. Agora, como antes, com 0,0001% de margem para rejeitar o desafio. Mais zero menos zero. Agora, numa incerteza crescente, dá vida cerrar os dentes sem que a mesa consiga distinguir ou adivinhar a mão. Uma e cada mão de um jogo. Estará Seguro preparado para negociar este acordo social? Veremos. Com um pormenor: há quem espere a (sua) mão.
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Raul Vaz
raul.vaz@economico.pt
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