Não sei se têm reparado, mas há um certo silêncio político sobre o negócio mais importante que está a acontecer em Portugal: o apetite que duas (três?) empresas brasileiras já demonstraram ter pela Cimpor.
E aqui, político não significa "dos políticos". Ou antes, é mais do que isso.
Há, por detrás do interesse de algumas das maiores empresas brasileiras na Cimpor, questões simbólicas que não dizem apenas respeito aos valores das ofertas, aos advogados que estão a assessorar a Camargo Corrêa ou a Companhia Siderurgica Nacional (CSN). Estivesse este negócio a decorrer nos Estados Unidos e ninguém calaria os analistas, ideólogos, comentadores, e políticos - até eles, nesse insuspeito e liberal país -, discutindo questões como o alienar de centros de decisão, ou se os melhores negócios se aguentam neste mercado, ou mesmo sobre as vantagens das injecções estrangeiras de capital, ainda mais vindas de países com energia e boas oportunidades. Foi assim com a ameaça alemã sobre a GM, ou quando o grupo chinês Lenovo comprou os computadores pessoais da IBM.
É verdade que neste negócio não está em causa nenhum interesse estratégico nacional, os cimentos não o são. É também verdade que os partidos estão mais interessados no Orçamento, neste momento. Mas isso não significa que este não seja tema que mereça uma boa e inflamada discussão. De política, a sério e não politiquice. Sócrates ainda foi questionado, estava a OPA da CSN no adro, no ano passado. Depois disso...
Hoje, o Económico dá notícia do interesse da Caixa Geral de Depósitos em não deixar o futuro da Cimpor por mãos alheias. Faria de Oliveira já tinha dito que estava preocupado com a "defesa dos centros de decisão nacional". Esta estratégia vem na mesma linha da compra dos famosos 10% a Manuel Fino, que tanta polémica levantaram há exactamente um ano.
É bom, e mesmo saudável, que os políticos se metam o mínimo possível nos negócios dos e com os privados. Mas talvez também não fosse menor sintoma da vivacidade e saúde de um País que se falasse um pouco mais de algo que diz tanto sobre o nosso destino como... país.
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Catarina Carvalho, Directora-adjunta
catarina.carvalho@economico.pt
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