Num dos últimos painéis do “Expresso”, foram ouvidas 12 personalidades acerca de um tema polémico: “Vamos mesmo ter de reduzir salários em Portugal?”.
Feito o apuramento, 7 responderam que sim, 2 disseram que não e 3 optaram por uma daquelas respostas redondas cujo significado ninguém entende. Fixemo-nos no essencial: 58% dos inquiridos defendem a redução dos salários. É a negação de nós próprios. Não acham estranho?
O tema é delicado, sobretudo porque as pessoas não sabem lidar com ele. Num auditório de gente comum, a uma pergunta daquelas, o normal é que se responda com indignação: "Baixar?! Se, para um mesmo trabalho, e com a mesma paridade do poder de compra, os portugueses ganham metade de um americano e dois terços de um europeu, por que raio hão-de reduzir os salários ainda mais?" O simples colocar da questão já é um insulto.
Sucede que a análise está mal feita. O que interessa comparar não é o nosso salário com o dos outros, mas sim o nosso salário com o nosso produto. E a conclusão é terrível: os custos do trabalho por unidade produzida atingem em Portugal um dos níveis mais altos da Europa, e os aumentos recentes ainda agravaram a situação. Números de 2008: em Portugal, o peso dos salários no PIB excedia os 50%; a média da zona euro não chegava a 48%. É impossível competir assim.
Não havendo competitividade, é óbvio que a economia não funciona. Precisamos de repensá-la. No longo prazo, está tudo em aberto: a reorientação do investimento, a reforma da educação, a substituição dos mercados, etc. Mas, no curto prazo, em que não há tempo a perder, dificilmente se encontra uma solução que não passe pelo controlo dos custos: à cabeça estão os salários. Muito bem, e se os trabalhadores recusarem?
A questão é meramente académica. Havendo recusa, entram em campo os estabilizadores automáticos: recessão económica, falências em série, desemprego crescente. E, na fase seguinte, em que a novos empregos correspondem novos contratos, aplica-se a lei da oferta e da procura: os salários serão mesmo mais baixos. Estivemos apenas a perder tempo - de um lado e do outro.
Se acham que a culpa é do mensageiro, podem começar a bater...
d.amaral@netcabo.pt
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Daniel Amaral, Economista
Comentários (27)
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Caro joamor, claro que a culpa é de todos. Mas então não deixemos na mão de uns poucos (como os 12 paineleiros), ainda por cima daqueles que mais responsáveis são, - a solução do problema.
Èu sou contra e a favor, ou seja, só contra a descida dos salarios abaixo dos 3000 porque o custo de vida está tão alto que é o salario maximo que se pode dar para ter dignidade e fortalecer a classe media, e sou a favor da descida dos salários acima dos 5000euros porque acho um atentado, senhores onde maior parte são eleitos politicamente (jobs for the boys) e depois ganham salários regalias superiores aos tops da função publica inclusive presidente da republica. Se as empresas têm assim tanto dinheiro para pagar milhões por ano de salários a pessoas de administrações supostamente para serem responsaveis e depois quando erram como no caso do bpn, pouco ou nada são chamados a responsabilidade então mais vale em pagar um salário mais baixo e investir no Pais! Porque o resultado é triste, temos uma classe alta bastante grande para o pais que temos, que por fim acaba por não ter tempo para consumirficando os seus capitais parados, que nada contribuem para o pais,
A análise que é feita, obedece a um raciiocínio lógico. Sabemos que a componente de custos, é uma variável importante no preço final do dum serviço ou de um produto. O salário é um desses componentes. O problema está
na justiça da diferenciação dos níveis salariais praticados e na aplicação dos resultados positivos (lucros). Há alguns anos, a importação de carros de topo de gama Ferraris eram em parte destinados a empresários de empresas texteis e calçado e como se sabe, muitas destas empresas fecharam as portas. Conclusão: A prática nem sempre está de acordo com a teoria.
São medidas com esta que nos levaram à crise... São os velhos a querer curar doenças novas com remédios velhos... Não temos gente preparada para novas soluções... Os problemas recentes, requerem gente nova e criativa... baixar salários para resolver a crise é tapar um buraco criando outro buraco...
A verdade, por mais triste ,é que vamos ter mesmo que viver pior.Porque o nosso produto dificilmente vai crescer.A culpa é dos empresários, mas os empresários refletem aquilo que somos como povo. A falta de sentimento colectivo que nos afecta leva a que valhamos pouco..., e como tal temos que viver com pouco.A culpa não é de "a" nem de "b", é de todos.,
Um simples raciocino. Se eu tiver que pagar mais por uma máquina que me substitui um operador, do que pago pelo operador, porque razão é que devo comprar a máquina? Um dos problemas da baixa produtividade em Portugal é esse. Ainda compensa ao empresário pagar o trabalho manual, em vez de automatizar os processos. Ou seja: não é baixando os salários que se vai melhorar a produtividade.
Quero dar os parabéns ao Sr. Paulo, tudo que diz é a pura realidade, os empregados trabalham para pagar todas as mordimias de toda, mas de toda a família da entidade patronal. Não há produtividade de
Só os senhores de barriga cheia fazem tal proposta. É claro que um ordenadão reduzido, continuará a ser um ordenadão, e para quem tem ordenados de miséria é mais fome. Tenham mas é vergonha na cara e coragem para acabar com mordomias e pensões acumuladas, que é o que todas estas 12 personalidades têm. E terão de fazê-lo a bem ou a mal. Haja coragem!
Sr. Dr. Economista:
Dê o exemplo e vá apresentar essa proposta ao(s) seu(s) patrão(ões).
E se o exemplo vier de cima (gestores) talvez já não seja necessário o regime de neoescravatura que propôe...
Ainda sobre o desequilíbrio das contas externas e o facto de que vivemos acima das possibilidades. A ver se passa. 1- Não olhemos só para as exportações (nós até exportamos muito), olhemos também para as importações: somos o país mais dependente do petróleo e, em termos agrícolas, só somos excedentários em leite e carne de frango. Temo-nos esquecido da agricultura e da pesca. Corrijam a situação. 2- Não estamos a aproveitar o interior, para a agricultura e pecuária e para o turismo. Castelo Rodrigo, Almeida, Almourol, a região do Douro, para citar apenas alguns exemplos, estão esquecidas. Que pena! 3- Contunuem com a reforma do sector público. 4- Apostem mais na “melhor gestão” em vez das novas tecnologias, que só servem para encher o olho.
Este tema dá pano para mangas e não pode ser tratado em meia dúzia de linhas nem comentado em 2 ou 3. Importamos mais que exportamos, logo estamos a viver acima das possibilidades. Até aqui está toda a gente de acordo. Como resolver o problema? Alguns neoliberais, o exemplo mais conhecido é talvez o de Medina Carreira, são adeptos de um corte dos salários. Outros, o exemplo mais conhecido é talvez o Dr Cavaco Silva, pensam que devemos alterar o “tecido económico” deixando cair o têxtil e o calçado e investindo nas novas tecnologias e, simultaneamente recusando os investimentos em infraestruturas e apostando naquilo a que eles chamam o “capital humano”. A primeira hipótese é irrealista, mesmo que se interrompesse a democracia por 6 meses. A segunda é uma miragem sem sentido. Com efeito não se altera o “tecido económico” por decreto e no prazo de uma legislatura e, por outro lado, as apostas “tecnológicas” como o Qimonda, e a produção de componentes automóveis foram um desastre. E atenção à industria eólica, que vive dos subsídios. (Vou tentar fazer um segundo post).
ó vg es como a maioria dos portugueses...perito em sacudir a agua do capote.a culpa nunca é nossa
curioso. posso dar como exemplo um empresário BELGA residente em portugal. é dono de uma empresa que abriu com 20000,00EUr à 6 anos. os seus funcionarios recebem 30% mais que outros do mesmo ramo. este ano este Sr. sem descontos ou apoios de ninguem adquiriu outra empresa do mesmo ramo que estava a falir. será milagre!!!. não a diferença é que quando a sua empresa começou a dar lucro o empresário reinvestiu em novas maquinas e processos, não foi logo comprar grandes carros e casas. actualmente est´´a com uma situação confortavel e no seu pensamento os carros e casas caras são questões a ponderar no futuro. caso estejam curiosos o carro que tem é um clio, no entanto o patrao da empresa que comprou tinha um mercedes.
o empresario em causa fica espantado com o tipo de "gestão" que os nossos empresários tem. a comparação que faz deles é de um pais de terceiros mundo. é por estas e por outras que tenho vergonha de ser portugues.
O senhor/a "POIS" tem toda a razão, quem sbe ele já recebe o seu salário em generes, alguns pagamentos contudo devram ser um pouco dolorosos penso eu.
De outra forma o dito senhor/a já deve de estar habituado a isso pela minha parte prefiro receber o meu ordenado em dinheiro muito obrigado-
A boa governance para quem não sabe, estipula que as diferenças salariais entre o topo e a base da grelha não deverão exceder 4-7 vezes no máximo, isto é básico em gestão ... no portugalinho é o que se sabe, autênticos e recorrentes "roubos de igreja" com o beneplácito do establishment, leiam-se governos e partidos, notóriamente. NOTA - por exemplo, os quadros da GroundForce, " exemplar empresa do sector da av com", incluindo alguns "emprestados" pela Tap, já fizeram constar que não estão disponíveis para uma reduçaõ salaria ... e estão "cheios de razão os pequenos". Se outros doutras áreas empresariais se fartaram de vigarizar/roubar continuando incólumes, como é habitual no portugalinho, porque razão os da GroundForce seriam "prejudicados"?