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Pedro Adão e Silva

O Pai Natal dos partidos

05/05/09 00:03 | Pedro Adão e Silva 



A democracia, como os almoços, não é grátis. Tem custos, alguns deles bem elevados.

Como não há democracia sem partidos, desde logo é preciso pagar o funcionamento destes. Não há, a este propósito, pólvora por inventar: ou os partidos são financiados através de uma subvenção pública, assente no esforço contributivo de todos, ou, em alternativa, recolhem fundos privados. Num país com as nossas tradições, o financiamento público é a melhor forma de, por um lado, impedir a captura do interesse público, mediado pelos partidos, pelos interesses privados financiadores e, por outro, de dificultar a corrupção e a apropriação ilícita por parte de intermediários de fundos destinados aos partidos. Em todos os partidos se contam histórias suficientemente verosímeis que atestam estes dois fenómenos. Nos últimos anos, deram-se passos correctos: avançou-se para o financiamento com uma subvenção pública que parecia ser suficiente; aumentou-se a fiscalização e a consolidação das contas partidárias e, não menos importante, tudo com o objectivo de economizar nos gastos com campanhas.

Contudo, a semana passada, os deputados reuniram-se para, de surpresa e após todas as audições públicas, darem um passo ao arrepio do que havia sido feito nos últimos anos: aprovaram um aumento em mais de um milhão de euros do limite das entradas em dinheiro vivo nas contas dos partidos, sem necessidade de prestar contas. Ou seja, o que era um limite razoável para acomodar algumas contribuições de militantes e angariações de fundos pagas em numerário, subiu de um tecto de 22 mil euros para mais de 1 milhão de euros. Ao mesmo tempo que a subvenção pública se manteve inalterada, tendo inclusivamente sido aprovada uma derrogação da indexação ao IAS. Mais, ficámos a saber que os orçamentos para campanhas eleitorais vão também subir. O que os deputados todos, com uma excepção, nos quiseram dizer, em memória do mártir, doador anónimo do CDS/PP, é claro: "que mil Jacintos Capelo Rego floresçam". Doravante, os partidos voltam a poder ficcionar uma angariação de fundos como forma de dividir montantes não enquadráveis pela lei. Que a necessidade de regularizar as contas da Festa do Avante! - esse momento em que um número de beneméritos da área metropolitana de Lisboa se junta para celebrar a Revolução de Outubro fazendo oferendas em dinheiro vivo - seja invocada é, aliás, do domínio do anedotário nacional. Bem sei que a expressão autismo foi banida do debate parlamentar. Mas, depois do que se passou na semana passada, e quando deviam estar a ser dados passos para consolidar o financiamento público, aumentar a prestação de contas e para conter os gastos com campanhas, autismo é a única forma de classificar o modo como os deputados lêem os sinais que os portugueses vão dando sobre os partidos portugueses. No fim, fica uma certeza. Para os partidos, Natal é mesmo quando os deputados querem.

____

Pedro Adão e Silva, Professor universitário

 




Comentários (4)

NapoLeão, | 05/05/09 10:26
Foi gasta uma pipa de massa para dotar a Assembleia da República de funcionalidades, comodidades e ficar "au point". Concluídos os trabalhos, não é que já se notam "grandes melhorias" nos trabalhos ali produzidos ? Vai ser cá um fartote de discursos, filmagens, legislação e mais legislação com debates pelo meio que o melhor é "meter férias" para ver os resultados !


vg, | 05/05/09 00:21
Foi enternecedor ver como os partidos "decentes" arranjaram esse esquema para "acomodar" os donativos em dinheiro da festa do PCP.Isto ,depois gastarem 8 milhões a melhorar a sal,que é mantida para os mesmos 230 personagens.Alguem pode levar estes politicso a sério?.Votem neles,votem..


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