O novo Partido Socialista teve um bom começo no congresso que consagrou António José Seguro, afirmando os seus valores distintivos e a necessidade de uma renovação, ou mesmo de uma refundação.
No entanto, aquilo que parecia uma linha orientadora forte rapidamente começou a perder-se. Quando os portugueses vêem imagens do Parlamento, com fiéis de Sócrates na primeira fila, não podem senão ficar perplexos (o que estão lá a fazer? Não há nenhuma empresa que os contrate, nenhuma universidade que os queira?). Num outro registo, a posição débil assumida diante do Orçamento de Estado apenas agravou a perplexidade. Mas o pior veio depois, com o protagonismo da crítica ao OE e ao Governo a ser assumido pelo Presidente da República.
No entanto, a desorientação do PS é recuperável, se o partido conseguir concentrar-se no essencial. Em primeiro lugar, numa nova visão ideológica que rompa com terceiras-vias e outros artifícios retóricos que dominaram os partidos do socialismo democrático na Europa. Essa nova visão tem de centrar-se nos valores da social-democracia clássica, mas adaptados a um tempo de crise. A social-democracia actual tem de defender a austeridade, mas em nome da realização de um Estado social sustentável e não em nome da manutenção do que existe, ou da sua simples destruição com cortes cegos (como está a fazer o Governo).
Em segundo lugar, o PS tem de estabelecer relações com os movimentos sociais, em vez de continuar a pairar acima deles. Isso significa uma maior coordenação com o movimento sindical e o apoio às suas lutas, mas também a aproximação aos movimentos informais, como os "indignados". O PS tem de ser a voz daqueles que não se revêem na actual governação, mas de forma consequente e sem cair no utopismo da extrema-esquerda.
Em terceiro lugar, o PS deve deixar de dar centralidade às causas da "nova esquerda" (aborto, casamento gay, divórcio sem culpa, etc.) que marcaram a governação de Sócrates. Isso significa que, no plano dos costumes, o PS deve aproximar-se do centro, convocando o apoio dos católicos e das classes médias cada vez mais descontentes com o actual Governo.
Em quarto lugar, o PS tem de inflectir a sua estratégia de oposição. O PS pode dizer que, a contragosto mas com sentido de Estado, se absteve num OE que não era o seu e que considera profundamente errado. Mas isso significa que não deve haver segunda oportunidade para a coligação no poder, uma vez que o seu autismo social e as suas políticas estão a empurrar-nos definitivamente para o empobrecimento e para a bancarrota (mesmo que o euro sobreviva). Assumir doravante uma oposição mais marcada e travar este Governo no futuro é um imperativo nacional que o PS tem de assumir.
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João Cardoso Rosas, Professor universitário
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