Quem fala pelo Presidente? O próprio? O chefe da Casa Civil? Fonte próxima? Alguém que se julga, ou faz passar, por íntimo? Resquícios perdidos no ciclo de uma vida? Ou, simplesmente, ninguém?
O Presidente desmente o Público. Não leu o Expresso. Augusto Santos Silva tem razão: o pior está no exercício da cobardia.
E agora uma conversa com conteúdo. Sábado, no Expresso: "(...) o que parece claro é que Cavaco está preocupado com os cortes e reduções que afectam em particular a função pública e estão a provocar uma debandada de quadros. (...) Se antes Cavaco falou da ‘equidade', agora é mais explícito. ‘Há muita gente que não acredita na possibilidade da administração pública manter o nível de qualidade no futuro', dizia uma fonte próxima.
(...) Ao retirar-se capacidade ao Estado, torna-se desmotivadora a função, ao mesmo tempo que não se preenche o vazio deixado pela sua retirada, explicava um observador. ‘Não é tanto a dimensão do corte, como a tipologia do corte que o incomoda'. Dito de outro modo, o Estado mínimo. (...) É na economia onde mais se realça a divergência. A dicotomia não é apenas entre Cavaco e Passos, mas entre Cavaco e Gaspar, em cujas soluções já mostrou não se rever". Informação com reflexo na primeira página: "Cavaco contra Estado mínimo de Passos Coelho".
‘Follow-up' no dia seguinte. No Público: "Cavaquistas querem que Vítor Gaspar saia". Manchete com informação no miolo: "(...) dentro deste grupo de personalidades que apoiam Cavaco Silva, há quem defenda já que o Governo deve substituir o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, que vêem como ‘um ultraliberal' que está a ‘dar cabo' do modelo social e económico construído após o 25 de Abril (...) É assim conhecido o posicionamento crítico de Cavaco Silva à política económica e orçamental do Governo. (...) Uma das questões em que a divergência entre Cavaco e as políticas gizadas por Vítor Gaspar é profunda, é o tratamento dado aos pensionistas. (...) Outra linha de crítica do Presidente a Vítor Gaspar tem que ver com a equidade fiscal. (...) Outro exemplo de discordância é a lei das rendas".
A Presidência desmentiu.
Bem pode Nunes Liberato, o chefe da Casa, jurar pelas alminhas. Marcelo mandar calar os incompetentes, atordoado com um ‘penalty' falhado. Ou Marques Mendes gastar a sua prosa contra o incómodo que certamente sente pelo caminho de cumplicidades exercidas.
O problema é o homem. É Cavaco. O homem que permitiu ao país viver acima das suas possibilidades, que gerou para a função pública direitos adquiridos insustentáveis, que privilegiou a política de betão à cultura da educação. O homem que pensa que o país lhe deve tudo. Cavaco não tem emenda. Sempre assim foi. E não perdoa a quem ousa discordar. Usando o anonimato, insinuando escutas, exercendo um magistério de influência pelos jornais e não sustentado numa relação de confiança e transparência.
Não, não é uma questão de convicções ou ideologia. Cavaco é o que é, uma bota apertada. Vinte sete anos de cristalização e auto-beatificação. Cavaco já não é inquilino de Belém. Ascendeu ao estatuto blindado de mobília de Belém. Ele é o criador do seu museu de cera. O Museu de Cera de Monsieur Silva.
Por estes dias, soube-se que o Presidente estará, a partir de Junho, na sala de Chefes de Estado do Museu de Cera de Madrid. Está certo. Só falta abrir a filial de Lisboa.
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Raul Vaz
raul.vaz@economico.pt
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