Os líderes europeus estiveram reunidos na sexta-feira para uma grande almoçarada. O almoço no Conselho Europeu começou antes do meio-dia e, cá fora, os investidores aguardavam pelas conclusões da reunião para saber se faziam um ‘buy’ ou um ‘sell’ à dívida pública soberana europeia, sobretudo à dos países periféricos.
Contudo, o repasto só terminou às 20h00, quando os mercados já estavam encerrados. A reacção dos investidores só será conhecida hoje e, pelo que foi dito e sobretudo pelo que não foi dito na reunião, não me parece que se estejam a preparar para carregar na tecla ‘buy'.
No almoço, os líderes europeus esperavam encontrar um menu ‘à la carte', mas deram de caras com ‘table d'hôte' de cozinha francesa e alemã. Quem não gostava de um ‘coq au vin', de uma ‘cassoulet', de um ‘foie gras' ou de um ‘crème brûlée' podia escolher o menu alemão: umas salsichas ‘bratwurst', um ‘sauerkraut' e para sobremesa um ‘apfelstrudel'. Quem não gostou de nenhum dos menus teve de comer e calar. Afinal Merkel e Sarkozy são os que vão pagar a conta.
A França e a Alemanha, os dois países mais ricos da zona euro, para darem luz verde à flexibilização do Fundo Europeu de Estabilização Financeira levaram ao Conselho um cardápio de medidas que querem impor aos parceiros europeus: aumentar a idade da reforma para os 67 anos; acabar com a indexação dos salários e pensões à inflação; inscrever na Constituição de cada um dos países um limite ao défice e à dívida pública; harmonizar os impostos cobrados às empresas e um reforço das sanções para quem violar o PEC.
Como se diz por cá, não há almoços grátis. E nem as garrafas de Moët & Chandon que Sarkozy levou para regar o almoço serviram para acalmar os ânimos de alguns líderes europeus que estavam verdadeiramente indignados com as propostas do eixo franco-alemão, uma verdadeira bofetada ao que ainda resta de soberania nacional dos países membros. A Áustria nem quer ouvir falar de aumento da idade da reforma; para a Irlanda, nem pensar subir a sua atractiva taxa de IRC de 12,5%; e países com uma forte estrutura sindical como o Luxemburgo, Bélgica e Espanha não querem o fim da indexação dos salários.
É um erro o que está a fazer a Alemanha, ou seja, condicionar a flexibilização do fundo de resgate europeu, que é uma emergência de curto prazo, à aprovação de medidas estruturais que vão levar, com certeza, anos para se tornarem consensuais entre países com apetites e paladares tão diferentes. Por enquanto, fica tudo adiado para o próximo Conselho Europeu de 24 de Março. Até lá, Portugal vai ter de colocar no mercado entre 5 a 8 mil milhões de euros.
Sem uma rede de segurança por parte da Alemanha e da França, os países periféricos e com baixa notação de risco vão ter dificuldades em colocar dívida no mercado a preços razoáveis. Vai ser difícil convencer os nossos credores a comerem um bitoque com ovo a cavalo quando há tanto ‘filet mignon' por aí à venda.
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Pedro Sousa Carvalho, Subdirector
pedro.carvalho@economico.pt
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