Num dia de Maio de 1976, o jornalista da BBC Barrie Penrose recebeu um telefonema inesperado, convidando-o para uma bebida ao final da tarde.
Penrose hesitou mas acabou por aparecer. O anfitrião anunciou-lhe que a democracia estava em perigo e que tencionava ajudá-lo a descobrir uma "enorme conspiração": "vejo-me como uma aranha grande e gorda no canto da sala. Por vezes falo enquanto durmo. Devem ouvir. Ocasionalmente, quando nos encontrarmos, posso dizer-vos para irem até Charing Cross Road e darem um pontapé no cego da esquina. O cego dir-vos-á algo, uma nova pista". A "aranha gorda" era Harold Wilson, até há um mês o primeiro-ministro britânico e o discurso, em vez de lhe conferir um salvo-conduto para um hospital psiquiátrico, foi levado a sério pelo jornalista e motivou uma investigação de 2 anos totalmente improdutiva, no decurso da qual um número indeterminado de cegos terão sido pontapeados. O exemplo, relatado por Francis Wheen em Strange Days Indeed (Londres: Fourth Estate, 2009) ilustra a normalidade do absurdo e o estado geral de paranóia prevalecente nos anos 70.
É difícil compreender o quotidiano britânico da época: os atentados do IRA, a semana de trabalho reduzida a 3 dias pelas sucessivas greves dos mineiros, os cortes quotidianos de energia, a inflação acima dos 14% desde 1972 e os governos fracos que tentavam apagar o fogo com a gasolina neo-keynesiana da despesa pública financiada por emissão monetária. Gerry Healy, líder da Socialist Labour League, que se entretinha a violar subordinadas e a espancar os suspeitos de "revisionismo", via as suas proezas glorificadas numa peça de teatro pelos acólitos intelectuais trotskistas, com o seu alter-ego representado por Lawrence Olivier. Em 1971 Tariq Ali publicava The Coming British Revolution, anunciando o regresso dos sovietes à Europa: o expoente da tradição constitucional de governo limitado oscilava entre a queda no comunismo e uma ditadura militar inspirada pelo golpe de Pinochet.
Apesar de Wheen recorrer ocasionalmente à retórica paranóica que critica (por exemplo, quando considera "apropriado" que o actor escolhido para representar Nixon no filme Frost/Nixon fosse até aí conhecido pelo seu desempenho de Drácula) a sua demonografia dos anos 70 explica como a paranóia gerada pela ressaca do narcisismo ‘soixante-huitard' produziu uma visão do governo como uma conspiração contra os eleitores. Restituir qualidade à actividade política exige reparar o dano que esta visão, hoje generalizada, causou à autoridade e à legitimidade política. Mesmo países como os EUA e o Reino Unido necessitaram de alguma sorte e de estadistas excepcionais como Reagan e Thatcher para limpar este desastre de auto-complacência.
Recordo-me de um anúncio de página inteira com roupas e adereços da ‘hippie trend'. O anúncio não pretendia publicitar qualquer marca de vestuário revivalista -a frase que rematava a página recomendava os méritos de um autoclismo: ‘because there are some things that nobody wants to see making a comeback'. Alguns países menos afortunados ainda não encontraram o Grande Autoclismo; outros já esqueceram a moral da história.
____
Fernando Gabriel, Investigador universitário
Comentários (3)
Publicidade
Acções do PSI 20





o sr. gabriel tem que começar a falar de coisas que a malta entenda minimamente porque este artigo é incompreensível
Que saudade dos tempos em que os serviços secretos búlgaros usavam guarda -chuvas ,com pontas envenenadas , à caça de adversários, nas ruas de Londres."Cold war".Cool..