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João Marques de Almeida

O grande ausente

O Presidente Obama foi o grande ausente das celebrações dos vinte anos da queda do Muro de Berlim.

Os Estados Unidos foram os maiores defensores da Alemanha Federal durante a Guerra Fria. Entre os aliados, foram os grandes promotores da reunificação alemã. Os quatro países que formalmente ocuparam a Alemanha após a Guerra, Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido e França, desempenharam um papel central em todo o processo de reunificação, e por isso os respectivos (obviamente a Rússia substitui a antiga União Soviética) chefes de Estado e de governo foram convidados a discursar em Berlim na passada segunda-feira. Apareceram todos, Medvedev, Sarkozy e Brown. Apenas faltou Obama. Numa altura em que tanto se fala da necessidade de reforçar a relação transatlântica, é negativo ver o Presidente da Rússia e não ver o Presidente dos Estados Unidos, numa cerimónia com tanto significado para os europeus.

Pela sua experiência de vida e pela sua educação, compreende-se que a Europa não tenha um significado especial para Obama. Também é verdade que, no actual sistema internacional, Washington tem outras preocupações e outros parceiros igualmente importantes. No entanto, um Presidente dos Estados Unidos deve elevar-se acima das circunstâncias particulares da sua experiência pessoal. E uma reflexão atenta mostra que a Europa continua a ser um parceiro indispensável para os Estados Unidos.

Vejamos o exemplo do conflito no Afeganistão, uma prioridade para a actual administração. Depois dos Estados Unidos, os países europeus são os que mais tropas enviam para o Afeganistão. Todos falam da expansão da China e da Índia, mas onde estão as tropas chinesas e indianas? Pela proximidade territorial, certamente que a China e a Índia serão mais afectadas pelo triunfo do radicalismo islâmico no Afeganistão e no Paquistão do que os países europeus. Cada vez que alguém falar do declínio da Europa e da expansão da China, por que não responder que um país como Portugal tem mais tropas no Afeganistão do que uma potência vizinha como a China. Imaginem o que se diria na Europa se houvesse mais tropas chinesas do que europeias nos Balcãs.

O Irão constitui outro caso crucial para os Estados Unidos. Se há países que podem ajudar a administração norte-americana a impedir a nuclearização do Irão, são os europeus. Não será a China, nem a Índia nem a Rússia. Desde o fim da Guerra Fria, em todos os conflitos de interesse vital para os Estados Unidos, desde as duas guerras do Iraque ao Afeganistão, passando pela Bósnia e pelo Kosovo, foram os países europeus que estiveram ao lado dos americanos. E muitas vezes com enormes custos políticos para alguns dos seus governos. Talvez seja a altura de Washington repensar ideias como o "declínio da Europa" ou a natureza "civil da potência europeia". Na próxima vez que tiverem que enviar os seus jovens para operações militares longe de casa, serão antes de mais os europeus que lá estarão para os ajudar.
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João Marques de Almeida, Membro do Gabinete do Presidente da Comissão Europeia e Professor universitário