Esta semana, numa intervenção televisiva, António Costa Pinto chamava a atenção para o facto de o caso Freeport ter uma aparência de credibilidade por reproduzir os mesmos componentes de tantos outros casos de corrupção em Portugal.
Ou seja, aquilo que se vai especulando sobre este caso constitui uma repetição de outras histórias: licenciamentos suspeitos, políticos com grandes contas bancárias, financiamentos partidários ilegais. Só falta mesmo o futebol. Mas eu não me admiraria que ele viesse ainda a aparecer. Por fim, as fugas de informação - com origem na polícia judiciária, no ministério público ou noutras fontes - e as permanentes insinuações jornalísticas enquadram o caso Freeport nas estratégias habituais da luta com vista a alcançar o poder, ou a mantê-lo.
De norte a sul do país, há casos semelhantes. Há gente culpada que não foi sequer julgada e gente inocente a arrastar-se pelos tribunais.
Os portugueses conhecem as caras dos protagonistas mas, no meio da impotência da justiça e do nevoeiro mediático, confundem suspeitos e condenados, culpados e inocentes. A percepção que os portugueses começam a ter do caso Freeport não é diferente. Ele reproduz ao nível macro, por envolver o primeiro-ministro, aquilo que se passa normalmente ao nível micro, com câmaras e empreiteiros locais.
O caso Freeport transformou-se num espelho de aumentar do modo de operar de alguns dos nossos agentes económicos e políticos, dos esquemas de financiamento dos partidos, da falta de independência dos ‘media', do descrédito da investigação judicial. Não adianta dizer que o importante é que tudo seja esclarecido e se faça justiça. No ponto a que chegámos, é da mais elementar honestidade intelectual reconhecer que isso se tornou impossível.
Ao transformar-se num reflexo maximizado de tantos outros casos na sociedade portuguesa, o caso Freeport já está acabado, independentemente de tudo o que possa ainda acontecer. Face à inexistência de um sistema de justiça eficaz e perante uma comunicação social facilmente manipulável, cada português formou já o seu juízo sobre este caso - tal como sobre outros - em função do que ouviu dizer, da sua experiência pessoal, das suas preferências racionais, das suas emoções e dos seus preconceitos. Aquilo que os tribunais vierem a decidir não acrescenta nem retira nada.
Nota: termino aqui a minha colaboração de quatro anos com o Económico, um dos poucos órgãos de informação onde o rigor ainda se sobrepõe ao sensacionalismo. Ao seu director, jornalistas e leitores desejo as maiores felicidades.
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João Cardoso Rosas, Professor universitário
Comentários (10)
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Não conheço este senhor mas lamento que se vá embora. A clareza da sua análise seria um exemplo para muitos cronistas sem ética e sem escrúpulos.
GRANDE artigo, apesar de simples. Poucas palavras e claríssimas. Um dom de poucos. Não conhecia este senhor. Fazem falta senhores assim nas redacções da TVI, do CM, etc...
Palermice!
Os seus comentários
"cada português formou já o seu juízo sobre este caso " e "Aquilo que os tribunais vierem a decidir não acrescenta nem retira nada." branqueiam o que mais grave acontece na justiça portuguesa - que é o facto de NUNCA os poderosos serem condenados e, mais grave ainda, a corrupção a alto nível estar em franco progresso, para nosso mal.
Isso é que é o pior - muito mais grave do que as fugas de informação ou jornalismo sem investigação...
Aqui está um cometário verdadeiro. Qua a maior parte(bastante grande) dos que participam em muitos foruns retenham este escrito. Se for preciso, leiam, releiam, releiam, releiam.....
De facto o caso é parecido com muitos outros, só que neste caso está envolvido o 1.º ministro de Portugal. No caso de ser conspiração já atingiu os seus objectivos porque o caso já foi julgado e o alvo atingido. Só falta derrubá-lo do poder e isso cabe aos portugueses. Nem à comunicação social nem à justiça, mas acho bem que esta vá até aonde pode ir nem que leve mais 5 anos.
Concordo inteiramente com o conteúdo deste artigo. É triste e vergonhoso, mas é verdade. Eu acrescentaria ainda o péssimo e interesseiro trabalho das televisões e da imprensa que, além de manipuláveis e ao serviço de interesses desconhecidos, mais parecem partidos do bota-abaixo (antes fizessem oposição...).
Lamento o último parágrafo, onde anuncia a sua retirada. Precisamos de informação isenta e íntegra.
Quando se trata do poder político e monetário, a não ser que afecte outros mais poderosos, os casos estão prescritos à nascença!!!!! Reina a impunidade!!! Não venha lavar mais que o OMO!!!!!
O Freeport ainda agora começou, meu amigo...
Toda a razão!
Garcia Leandro
Tem razão,porque jamais este caso será analisado com isenção na sociedade portuguesa E a policia inglesa não é na perspectiva da corrupção, por autoridade politica ,o que está interessada. PS- obrigado pela sua contribuição para o nosso pensamento