Se os Descobrimentos tivessem dependido de um pacto de regime como os de hoje, não se teriam feito.
D. João II desenhou o projecto com décadas de distância, seguindo aliás o primeiros os passos de D. João I. Ambos morreram sem ter visto o extraordinário mundo que se abriu através das caravelas portuguesas. Foi possível porque eram eles que decidiam e não havia alternativa: por mais dúvidas que houvesse e fracassos que sucedessem, o tempo e liderança impuseram essa visão de longo prazo. Isto marca um país e a História.
Hoje, pelo contrário, há um problema por resolver entre a Democracia e o tempo. Com eleições em espaços tão curtos, qualquer estratégia de médio prazo não vinga, especialmente se envolve sacrifícios. Os partidos (e os seus líderes) focam-se na gestão da imagem para os noticiários da noite. E, de cada vez que isso acontece, Medina Carreira marca pontos quando alerta para o caldo de cultura que nos levará à adopção de "um chefe autoritário que ponha isto em ordem".
O exemplo mais evidente de sucesso do dirigismo estatal dos nossos dias vem da China e da Coreia do Sul. Os dois maiores colossos da economia mundial do momento fazem ‘dumping' na economia e controlam o valor da sua moeda ao serviço dos cofres do Estado, mesmo que isso implique fome dos seus cidadãos. Se ambos fossem uma democracia séria não poriam em prática políticas destas. Mas, com a força da repressão policial, fazem-no.Por ironia, mesmo nos países ocidentais, os seus resultados são considerados como exemplo a seguir...
É claro que o êxito chinês é pago pelo mundo vergado aos produtos com preços sem concorrência. Por isso Paul Krugman dizia há dias, no New York Times, que a China vai acabar por legitimar as medidas proteccionistas contra si. Porque, quem usa sistematicamente a arma da desvalorização da moeda - enchendo os cofres de triliões de divisas -enquanto espalha o caos do desemprego pelo mundo, mais tarde ou mais cedo vai pagar a factura.
E este é o problema mais difícil de resolver no momento actual: enquanto alguns países usam a ditadura (e outros o bom-senso) para resolver os seus problemas, nós vivemos na ideia de que não temos tempo para esperar por medidas estruturais que nos relancem.
Os portugueses estão repletos de direitos mas poucos acreditam na educação e no esforço como saída, dura, de futuro. Ora, se não há confiança no futuro, como pode haver sacrifícios no presente para pôr de pé uma visão de longo prazo? Só um Estado saudável e cidadãos comprometidos com a História do país, e das gerações vindouras, é capaz de dar espaço à democracia para que ela seja eficaz. A pior ficção é de que não há tempo para preparar o futuro.
radar@faroldeideias.com
____
Daniel Deusdado, Jornalista
Comentários (1)
Publicidade
Acções do PSI 20




