Desde a primeira fase do duelo Soares-Freitas que não se assistia a uma campanha tão envenenada pelo ódio. Até ao empate da sondagem da Católica tudo parecia normal.
A partir daí, os media atingiram o inimaginável: relatos de campanha com inocência perdida; debates supostamente plurais com participantes, sem disfarce, vomitando bílis contra Sócrates; os principais patrões dos media activamente na campanha, incluindo a presença em comícios; o candidato anti-Sócrates vociferando ataques de carácter; e até uma antiga dirigente desejando a morte civil ao primeiro-ministro. Claro que o PS não perdeu apenas por esta deprimente escalada, perdeu pelas razões por que se perde, quando o eleitor acredita, com ou sem fundamento, que o novo será melhor que o actual, agora culpado de todos os males do mundo.
O que houve aqui de diferente foi a intensidade dos ataques, a geração de ódio implícito, a par do absolutismo eleitoral que esfrangalhou várias ilusões, entre elas as de Portas. O PCP virou a cassete mudando os temas: quem chamou a direita ao poder não foi o seu conluio com ela para demolir o Governo, mas sim o próprio Governo. Da parte do Bloco, uma semana inteira contra o PS, principal inimigo, com generosa participação nos "plurais" debates. A maldição da vítima no seu pior.
E agora? Contra o que eu próprio imaginava e escrevi, as químicas do compromisso não se reunirão. Quer uma maioria absoluta do PSD a solo, quer conjugada com o CDS não geram condições para tirar o País da crise. A fractura a meio regressará logo depois do centro acordar do encanto, quando se sentirem os efeitos do Acordo. Durante seis a doze meses haverá um bode expiatório, "doce enlevo de alma ledo e cego, que a fortuna não deixa durar muito". Depois recomeça a triste realidade, com opositores internos aliados aos vocais inimigos das reformas. A rua como forma de luta, provocando e agradecendo pretextos de repressão. Os exércitos de desiludidos, convocados por SMS, enganados, depois humilhados e ofendidos.
E o PS? Dinamitadas as pontes por onde poderiam atravessar as caravanas do consenso, não se lhe peça que dobre a cerviz. Impossibilidade genética, a que se junta a tentação de ser oposição sem culpa. Sem culpa mas com honra, cumprirá aquilo a que se obrigou, nem menos nem mais. Não lhe peçam para segurar no estribo de cavaleiros de reformas de vingança e ódio, revisões constitucionais aventureiras, e destruições daquilo por que sempre se bateu, ainda mais agora.
Estará o novo poder interessado em amaciar este cenário?
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António Correia de Campos, Deputado do PS ao Parlamento Europeu
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