Nós, portugueses, temos sem dúvida muitas qualidades. Somar quase nove séculos de independência, mudar o rumo da história mundial através das Descobertas, desenvolver uma cultura literária própria...
Nós, portugueses, temos sem dúvida muitas qualidades. Somar quase nove séculos de independência, mudar o rumo da história mundial através das Descobertas, desenvolver uma cultura literária própria e pujante não são propriamente coisas que se possam realizar por uma comunidade sem fibra. Mas temos também defeitos, alguns deles graves.
Um deles é a enorme dificuldade que os portugueses e as suas reais ou supostas elites têm em discernir o essencial do acessório. Basta, por exemplo, estar atento à forma como decorre a maioria das reuniões de trabalho em Portugal para verificar que uma grande parte do tempo é perdida a discutir coisas que não têm a ver com o essencial das questões.
Vem tudo isto a propósito do modo como tem decorrido a vida política portuguesa nas últimas semanas.
O nosso país está perante uma encruzilhada difícil, das mais difíceis das últimas décadas. Tem para resolver uma crise estrutural, que resulta duma má inserção na globalização, levando à acumulação de dívida externa a um ritmo insustentável. Tem sofrido os efeitos da crise mundial, que reduz a margem de manobra para realizar as transformações estruturais de que necessita. Está integrado num espaço - a União Europeia - que perde progressivamente o pé na globalização e que corre o risco de se transformar num espaço de estagnação e desemprego. Temos, nós também, um desemprego ‘record' e um défice público que necessita de uma correcção rápida e portanto difícil. Não vale a pena prosseguir: a nossa agenda é carregadíssima e não é exagero dizer que estamos perante o maior desafio nacional desde a descolonização.
Pois bem, é nesta situação, que exige que as atenções nacionais estejam focadas nos desafios que temos pela frente, que impõe, mais que em outras ocasiões, que haja condições de governabilidade, que aconselha a formação de grandes consensos nacionais para ultrapassarmos os problemas - é nesta situação que, a pretexto de um suposto caso de atentado ao Estado de Direito se levantaram vozes (algumas delas consideradas responsáveis) a exigirem a demissão do primeiro-ministro, o mesmo é dizer, a exigirem que o país entre no caos governativo. Quanto ao suposto atentado ao Estado de Direito, já foi desmontado de forma inequívoca pelas autoridades que tinham competência para o fazer (tanto bastou para se insinuar por meias palavras que estariam ao serviço do Governo - o que, além de tudo o mais é de um ridículo atroz).
Noutra situação tudo isto seria mau. Na situação em que estamos é péssimo. Temos, como disse, grande dificuldade em distinguir o essencial do acessório. Mas no caso presente, fazer a distinção é uma questão de simples bom-senso. E esse raramente falta aos Portugueses.
____
João Ferreira do Amaral, Professor universitário
Comentários (2)
Publicidade
Acções do PSI 20




