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Helena Cristina Coelho

O enredo brasileiro da novela da Galp

23/06/10 00:04 | Helena Cristina Coelho 



A previsível mudança accionista da Galp promete mais animação que uma novela brasileira. Os ingredientes certos estão todos lá: ambição, poder, desavenças, famílias, alianças secretas e, claro, uma fortuna em jogo.

E o elenco também já é famoso, juntando protagonistas portugueses a brasileiros, italianos e angolanos, bem ao jeito de uma produção à escala global.

Para quem perdeu os últimos episódios, o resumo conta-se em três penadas. Nos últimos quatro anos, a Galp viveu em tranquilidade, graças a um pacto que o seu núcleo duro de accionistas - Amorim Energia, Eni e Caixa Geral de Depósitos - fizeram para vigorar até 2014. Nesse acordo parassocial, entre várias condições, prometeram formalmente que nenhum deles reforçaria a sua posição na petrolífera acima dos 33,34% e que só a poderiam vender a partir de Janeiro de 2011. Qualquer mudança antes desse prazo, a menos que todos concordassem, seria uma grave violação do pacto.

Mas, ainda as vuvuzelas não soavam pelas ruas, e eis que os accionistas da Galp se começam a inquietar. No início deste ano, os italianos da Eni deram um discreto sinal ao mercado: estavam disponíveis para sair da petrolífera portuguesa e vender a sua cobiçada fatia de 33,34%. Mesmo discreto, o sinal chegou a quem interessava e a prova disso é que, logo de imediato, arrancaram os secretos jogos de bastidores.

De um lado, Sonangol e a empresária Isabel dos Santos, que vêem aqui uma oportunidade para entrar directamente no capital da Galp sem depender de Américo Amorim, o accionista com quem partilham a Amorim Energia. Manuel Vicente, presidente da petrolífera angolana, avisou mesmo que tenciona investir directamente na empresa portuguesa. Do outro lado, os brasileiros da Petrobras, que podem ter aqui a chave para entrar no mercado europeu e alargar as suas parcerias com a Galp. No meio, estão os italianos da Eni, que ainda controlam o alvo da disputa e a quem cabe a última palavra sobre os futuros donos de 1/3 do capital da Galp.

A avaliar pelas últimas movimentações, os brasileiros levam vantagem no jogo. Já existe acordo entre a Petrobras e a Eni para a compra de, pelo menos 25%, podendo os restantes 8% ficar nas mãos da Caixa. Uma aliança luso-brasileira que os governos de Brasília e de Lisboa vêem com bons olhos e para a qual, conforme apurou o Diário Económico, só falta acertar o preço - um valor que, à cotação actual, ronda os 3,6 mil milhões de euros.

Este cenário só tem um problema: aparentemente, não reserva qualquer papel para a Sonangol ou para Isabel dos Santos, algo que certamente desagrada aos angolanos e os obrigaria a esperar por outra oportunidade - como a disponibilidade de venda de outro accionista ou durante a próxima operação de privatização. A visita oficial do presidente angolano, José Eduardo dos Santos, ao Brasil, já esta semana, certamente terá estes temas no guião. As petrolíferas estatais Petrobras e Sonangol também já são parceiras em vários negócios e isso pode ser estrategicamente recordado para minar a vantagem brasileira no negócio da Galp. Técnicas que, numa boa novela, podem desencadear um volte-face. Ou mais. Mas até se conhecerem as cenas dos próximos episódios, mantém-se o suspense sobre o destino dos cobiçados 33,34% da Eni.
____

Helena Cristina Coelho, Subdirectora
helena.coelho@economico.pt




Comentários (5)

tozeme, | 23/06/10 23:44
Tudo de bom para a Doutora Isabel dos Santos.


especulador, | 23/06/10 17:46
Pouco me intressa se os accionistas da Galp sao angolanos ou brasileiros,intressa-me muito mais a vergonha que é a Galp ter o monopolio dos combustiveis em Portugal,praticando descarada cartelização,aumentando a seu belo prazer o preço dos mesmos(nunca os baixando na mesma proporção),mesmo quando o preço do crude baixa!Temos os combustiveis mais caros da Europa,é uma VERGONHA!!!,até pareçe que somos um país rico??e o governo não faz nada!!


Marta, Porto | 23/06/10 16:04
Fico impressionada com certas opiniões. AMOR COM AMOR SE PAGA...O que dizer da Galp que não demonstra o seu "amor" ao praticar preços nos combustíveis que de todo não reflectem esse "amor" e como foi dito há dias atrás "tudo tem um preço" e num mundo cada vez mais virado para valores tão impregnados pela obtenção de vantagens monetárias, tudo é uma questão de VALORES...tanto cá como lá...


Luis Ribeiro, Lisboa | 23/06/10 09:34
Os portugueses devem fazer o que a OI, fez, com o apoio do governo brasileiro, blindar, para os brasileiros não assumam o controlo da empresa, amor com amor se paga.


vg, | 23/06/10 04:42
A Galp tem de ter um parceiro ,que seja forte e especializado na indústria.A Petrobrás pode ser esse parceiro e os "sheiks" de Angola podem ter uma quota secundária ,para a partir daí aprenderem o negócio.Das rolhas e do imobiliário, é qeu já não entendo...


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