Há dias, o Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou o seu mais recente relatório relativamente ao comércio internacional de bens da economia portuguesa.
Assim, no conjunto de 2011 face a 2010, as importações cresceram apenas 1% enquanto que as exportações revelaram um crescimento de 15%, com especial destaque para o aumento das exportações para os países extra-comunitários. Mas, enfim, as boas notícias terminam aqui. E terminam aqui porque uma análise mais detalhada das chamadas "grandes categorias económicas", como o INE lhes chama, revela que num total de seis grandes categorias apenas numa delas, a rubrica de "material de transporte e acessórios" (leia-se, a Autoeuropa e afins), é que Portugal se assume como um exportador líquido.
Nas restantes cinco, evidenciamos saldos negativos. E no total, anualizando os saldos (positivos e negativos) de todas as rubricas no último trimestre do ano, chega-se a um défice global no comércio de bens que é superior a onze mil milhões de euros, ou seja, mais de 6% do PIB.
Ora, sendo certo que o défice que resulta das importações de combustíveis e lubrificantes é de difícil resolução, há outros défices que não fazem sentido. Refiro-me, concretamente, ao saldo negativo na rubrica de "produtos alimentares e bebidas", estimado em 1,5% do PIB, onde se inclui um défice comercial no pescado. Portugal, recorde-se, tem um historial secular nas artes da navegação, possui uma das maiores zonas exclusivas marítimas da Europa, é o terceiro maior consumidor de peixe "per capita" do Mundo e, no entanto, importa mais de metade do peixe que consome!
Este, sim, é o exemplo mais flagrante do nosso declínio. Infelizmente, não é o único domínio no qual a nossa dependência externa nos trai, existindo outros como, por exemplo, os "bens de consumo" ou, até certo ponto, as "máquinas e outros bens de capital", onde parte do que importamos poderíamos e deveríamos produzir, revertendo essa produção para a nossa taxa de crescimento interno e não para o nosso desequilíbrio externo.Enfim, tenho nestas crónicas argumentado em prol de uma agenda liberal (concorrencial), mas também em defesa de uma agenda interna (proteccionista).
A primeira para estimular o crescimento da nossa economia, livrando-a da ineficiência pública, aumentando a produtividade. A segunda para potenciar o aproveitamento dos recursos internos, reduzindo o desemprego que é e será sempre a maior chaga de qualquer agenda reformista. Não tenhamos ilusões nem sejamos ingénuos: a convergência dos níveis de produtividade entre o centro e a periferia levará décadas a acontecer, se acontecer. Impõe-se, por isso, a existência de um sistema de freios e contrapesos. Seja este um sistema de transferências permanentes ou, alternativamente, de formas mais ou menos explícitas de proteccionismo.
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Ricardo Arroja, Economista
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