As declarações do presidente do Parlamento Europeu têm duas versões. A original e a anotada pelo próprio. Não querendo discutir as reais intenções de Schulz, vale a pena olhar com atenção para a primeira versão pois é paradigmática da situação a que chegou a União Europeia.
Nas palavras originais, o presidente do Parlamento Europeu afirma que Portugal está condenado ao "declínio" porque Pedro Passos Coelho foi a Angola pedir investimento na economia portuguesa. A sobranceria do centro da Europa teve mais uma erupção. Foi esse snobismo que empurrou a União Europeia para a actual crise.
A Europa está sentada em cima do seu modelo social que está a levar a economia ao fundo por ser insustentável, uma vez que bloqueia as condições de competitividade. Por isso, o Velho Continente perdeu a dianteira na competição internacional. No campeonato da inovação e das ideias, há muito que as universidades americanas ditam as tendências. Na corrida da produção, os BRIC estão-se a impor cada vez mais. E a Europa prefere manter uma postura de colonialista falido, achando que tem uma superioridade moral sobre todos os outros povos, em vez de fazer uma reflexão sobre as causas da sua decadência e como pode dar a volta à situação sem perder a identidade gerada por uma História de vinte séculos.
Esta atitude de superioridade não existe apenas em relação aos países africanos ou asiáticos. O centro da Europa tem a mesma posição sobre os países periféricos que pediram ajuda financeira. Basta ver como Portugal e Grécia são tratados na imprensa germânica ou as declarações de muitos políticos, incluindo da chanceler Merkel. Genericamente, pensam que somos preguiçosos e desgovernados. Por isso, os planos de resgate são, em certa medida, uma imposição das ideias destes países sobre como deve funcionar a economia e a sociedade e esquecem as especificidades de cada país. Resultados disto, há medidas correctas mas há outras que provocam grandes rejeições sociais.
Assim, o Governo português faz muito bem em reforçar as relações com outros países como Angola - que é já o quarto parceiro comercial -, Brasil ou China. O problema das últimas décadas passou também por uma excessiva aposta na frente europeia. A economia portuguesa só faz sentido aberta ao estrangeiro e a salvação virá da capacidade de diversificar os mercados. Não está em causa sair do euro, mas devem-se aprofundar relações com os países de língua portuguesa e outras economias em crescimento. Como a própria Alemanha também já fez em relação à China.
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Bruno Proença, Director Executivo
bruno.proenca@economico.pt
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