Quem leu os comentários ao ‘affaire’ Strauss-Kahn reparou por certo na forma como uma parte da intelectualidade europeia repudiou os seus princípios políticos, a começar pela condição fundamental da igualdade perante a lei.
Incapazes de aceitar a isenção processual com que a justiça norte-americana tratou o acusado, inúmeros publicistas entregaram-se com abandono alarve a confabulações relativistas e biliosas. Até os promotores do multiculturalismo ignoraram sem cerimónia os "atributos ideológicos" da eventual vítima -mulher, negra, muçulmana, pobre- ingredientes de um pratinho de demagogia que praticamente se cozinhava a si próprio.
Como entender esta atitude? A complexidade das motivações individuais não é redutível a uma teoria "explicativa", mas há uma disposição geral subjacente ao padrão opinativo prevalecente entre a burguesia europeia que pode ser designada como o culto da autoridade. Os proponentes iniciais deste culto -os industrialistas Saint-Simon e Comte- tinham uma concepção estritamente hierárquica do corpo político, daí resultando uma necessidade de liderança, idealmente exercida por tecnocratas preparados para resolver os "problemas" sociais, que seriam naturalmente reconhecidos como "superiores" pelas massas democráticas. A influência subsequente de um certo tradicionalismo católico transformou esta visão positivista numa doutrina orgânica, onde o Estado funcionava como o centro de um dirigismo abrangente.
Sem se compreender as origens intelectuais do culto da autoridade é impossível compreender o carácter do europeísmo e do dirigismo das instituições internacionais contemporâneas, onde o culto da autoridade encontrou amplas oportunidades de expansão. Destituídas de qualquer controlo político, as instituições europeias e organizações funcionalistas como o FMI e o Banco Mundial tornaram-se no Parnaso de um autoritarismo tecnocrático e arrogante. Daí que a entrada dos polícias americanos na cabine do avião para deter o então director do FMI tenha sido recebida pelo próprio e pela burguesia iliberal europeia como "a" violação, um desrespeito atrevido pela superioridade de um detentor de autoridade.
Bem podem os europeus consolar-se com a provável eleição da Sra. Lagarde para o FMI, pois será a última vez que impõem a sua vontade política no topo das instituições internacionais: um previsível realinhamento dos direitos de voto em função da contribuição para o produto mundial reduzirá drasticamente a influência europeia e mostrará a extensão da decadência resultante do autoritarismo tecnocrático. No espaço geopolítico europeu, o risco não é a decadência mas a pura e simples implosão. Que o diga o Sr. Trichet: quando as regras impediram o BCE de emprestar dinheiro a quem lhe convinha, aceitando como garantia activos com notação inferior a A, mudou as regras. Agora está sentado em cima de uma pilha explosiva de dívida soberana, à espera que o removam com gentileza e sem um pio sobre "reestruturação", porque o "detonador grego" pode rebentar com o euro e o sistema bancário europeu. Os europeístas supõem que a Sra. Lagarde pode pegar na vassoura do FMI e varrer a porcaria do sobreendividamento europeu para debaixo do tapete. Não pode, mas é perfeitamente capaz de diminuir instituições essenciais ao funcionamento da economia global ao tentar. Mau sinal, que a tecnocracia europeia não se aperceba do seu perigoso delírio: os deuses enlouquecem aqueles que tencionam destruir.
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Fernando Gabriel, Investigador universitário
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Bonjour les fellis eh oui comme toutes les roses encore de beaux souvenirs et de belles emotions il est dur de revenir a la realite des choses et peut etre de penser que 2011 sera sans voir les rosesHeureuses de vous avoir connu et peut etre a bientotpourquoi pas a bordeaux le 14/01/2010bisous a toutes les deuxclaire