Pelo rumo que as coisas levam, o défice público vai marcar a agenda política dos próximos tempos.
E parece consensual o entendimento de que a solução para a crise está no crescimento económico: aumenta as receitas, dilui as despesas, melhora os salários e o emprego. Posta a questão nestes termos, estamos todos de acordo: ao crescimento, já! Há só um pequenino problema: como é que isso se faz?
Os motores do crescimento são três: o consumo, o investimento e o comércio externo. Mas é o investimento que, aumentando a capacidade produtiva, se sobrepõe a tudo o mais. E pouco importa que ele seja público ou privado, posto que tenha um bom efeito multiplicador. O que se passa é que, à luz de todas as análises até agora produzidas pelos especialistas na matéria, o investimento caiu a pique em 2009 e não dá mostras de recuperar tão cedo. Por aqui não vamos lá.
Mas façamos um ‘forcing'. De acordo com a estrutura do nosso PIB, por cada 100 unidades produzidas consumimos 85 e poupamos 15. E precisaríamos de investir qualquer coisa como 25. Não dispondo de poupança que chegue, como é que financiamos o resto? O leitor já percebeu: vamos ao exterior e contraímos um empréstimo de 10. Mas este é exactamente o fenómeno que mais precisamos de combater. Afinal, em que ficamos: mais investimento ou menos dívida?
Depois vem a eficiência. Há dois factores produtivos: o capital e o trabalho. Se estes aumentam, o que se espera é que produto aumente por duas vias: pelos factores em si e pelas melhorias associadas à produtividade. E aqui falhamos. Os nossos ganhos de eficiência ficam a uma enorme distância do que obtêm outros países em situações semelhantes. Não me perguntem porquê. Mas os nossos empresários devem uma explicação ao país.
Resta falar dos mercados. É evidente que, se produzimos mais, precisamos de escoar os produtos. E só temos duas hipóteses: consumir ou exportar. Mas do consumo não vamos esperar grande coisa, porque falta dinheiro. E aumentar exportações é muito difícil. Difícil para zona do dólar, porque os nossos preços são altos. Difícil para a zona do euro, porque vive um drama igual ao nosso. Sendo assim, exportamos para onde?
A ideia de crescer é boa. Mas tem de ter pernas para andar.
d.amaral@netcabo.pt
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Daniel Amaral, Economista
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O Segredo. A formúla do crescimento económico esquece por vezes uma variável não residual, que importa tomar em conta: o impacto das 'desigualdades sociais' na produtividade - e [o peso morto] na economia. Considere-se então que o país seria capaz de garantir melhor redistribuição de rendimentos - qual seria o resultado? Com mais famílias a disporem de mais rendimento (efeito multiplicador), como reagiria o 'consumo'? E as empresas [e o Estado], como se reorganizariam se lhes fosse dito que as assimetrias nos salários e remunerações teriam de diminuir e convergir a dados parâmetros- investiriam em estruturas mais 'leves' e 'horizontais', e, potenciariam mais motivação, responsabilidade e partilha, mais qualificação e conhecimento, mais inovação e tecnologia, mais eficiência e competitividade, mais lucro e investimento? E o Estado, qual impacto do crescimento real das remunerações [mais baixas] na despesa em políticas sociais, nos impostos e na receita, e no 'investimento público'?
"A ideia de crescer é boa. Mas..." sem se alterar a dinâmica social e a cultura empresarial, dificilmente terá pernas para andar!
Se o problema é a falta de bons empresários, seria boa ideia que cada Doutor e cada Engenheiro existente em Portugal, criasse uma Empresa que empregasse pelo menos 10 trabalhadores cada uma, e o problema da produtividade e do emprego seria automáticamente resolvido. Pois... o problema é que se fala muito..... mas faz-se muito pouco.
Caro Daniel Amaral,
Talvez se tenha esquecido que podemos crescer atravéz de serviços.
Aeroporto capaz de responder às necessidades e consequente aumento do turismo ( se se deixarem avançar os projectos propostos). Atravéz da ligação a espanha com combóis de bitola europeia (TGV) e assim desenvolvermos os nossos bons portos maritmos.
Tudo o que os neoliberais deste País não querem e estão a lutar contra.