Desde que se iniciou a digressão asiática de Obama, os propagandistas da Casa Branca comportam-se como o bêbado da proverbial anedota, que procura as chaves não onde as perdeu mas debaixo de um candeeiro, porque é ali que tem luz.
Mal vislumbram a luz de boas novas afastam-se o mais que podem dos dilemas estratégicos, do fracasso anunciado da cimeira de Copenhaga, dos comunicados cínicos da ASEAN sobre a situação em Myanmar, ou da forma como a prelecção de Obama sobre os benefícios do comércio livre foi recebida com críticas ao proteccionismo de alguns sectores com peso político no partido Democrata.
Na rábula coube ao presidente russo Medvedev o inesperado papel de candeeiro, por sugerir no encontro com Obama em Singapura que a Rússia poderia não se opor a sanções ao Irão se as negociações diplomáticas em curso falharem. Antes de felicitarmos Obama pela descoberta da chave para o problema de segurança colocado pelo programa nuclear iraniano, convinha por precaução verificar se é mesmo da solução que se trata, o que exige responder a três questões. Será provável que o Conselho de Segurança da ONU aprove um regime sancionatório contra o Irão? Será possível aplicar eficazmente um hipotético conjunto de sanções económicas? Qual a resposta estratégica mais provável do Irão?
Os que respondem afirmativamente à primeira questão invocam a necessidade russa de mais investimento externo para que as reformas económicas pretendidas por Medvedev avancem e pressupõem que tal só ocorrerá se a Rússia aceitar a aplicação de sanções ao Irão. Ignoram não só que a China vetará qualquer regime de sanções, mas também que o investimento externo pretendido pelos russos é sobretudo europeu e a Alemanha manobrará para evitar sanções ao Irão, seu parceiro económico, e opor-se-á a uma aproximação política entre os EUA e a Rússia.
Na eventualidade improvável de aprovação de sanções económicas, os apologistas da ideia supõem que o bloqueio eficaz da importação de combustíveis pelo Irão diminuirá o risco de guerra. Na verdade terá o efeito contrário. Quanto maiores forem as dificuldades económicas, mais intensa será a actividade das matilhas de terroristas que o Irão alimenta carinhosamente por todo o mundo. No limite, o Irão detonará o equivalente a uma bomba nuclear no centro da economia mundial: o bloqueio através de minas do estreito de Ormuz, o que provocará o confronto militar directo com as forças navais americanas. Além disso, os israelitas sabem que as promessas de leste não serão cumpridas e não vão aguardar pelo final do baile de máscaras para agir militarmente: é a sobrevivência enquanto nação que está em causa.
O dilema de Obama é o mesmo dos seus antecessores ideológicos progressistas e pacifistas: promover a segurança exige a ameaça credível de recurso à força e manter a paz pode exigir fazer a guerra. A Liga das Nações foi incapaz de resolver este dilema, com consequências históricas conhecidas; Obama continuará a preferir a luz equívoca dos candeeiros ocasionais à procura de soluções para os problemas de segurança que enfrenta.
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Fernando Gabriel, Investigador universitário
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