Em artigo recente, defendi nesta coluna o retorno do défice a 3% e da dívida a 60%, ambos em termos do PIB, a um prazo não inferior a dez anos.
Mas Bruxelas, ignorando a dívida, impôs à redução do défice o máximo de quatro anos - o tempo da legislatura. E Lisboa acatou. Não sei o que mais admirar: se o irrealismo de Joaquín Almunia se a resignação de Teixeira dos Santos. Este plano é de uma violência inaudita.
Peguemos nos números de 2009. A um PIB de 100, correspondem receitas de 44 e despesas de 52, reflectindo o esperado défice de 8 - os tais 8% do PIB, uma loucura. E, de acordo com a estrutura de 2008, por cada 100 euros de despesa aplicamos 32 em salários, 47 em pensões e subsídios e 21 em rubricas diversas de que se destacam os juros e o investimento. Dúvida metafísica: como é que vamos "comer" cinco pontos ao défice num espaço tão curto?
De crescimento económico sabemos que o biénio 2010-11 vai ser muito mau e o 2012-13 é uma incógnita. O melhor é não contarmos com isso. E a optimização da cobrança já deverá estar esgotada. Resta-nos o aumento de impostos: sim ou não? O cenário não é de excluir, mas penso que deverá ser o último a considerar. Os impostos já são de tal modo elevados que um eventual aumento seria um suicídio político.
A alternativa está no corte nas despesas. Recuperemos então a estrutura que deixámos lá atrás. Cortamos nos juros da dívida? É impossível. Aliás, estes juros ainda vão aumentar. Cortamos no investimento? Por Deus, não! Seria desistir de viver. Restam-nos três grupos de despesas: os salários, as pensões e as acções sociais. Querem fazer o favor de escolher? Eu recuso-me. Não consigo imaginar o choque que uma tal violência irá provocar no país.
Este é um terreno fértil para os analistas políticos. Antes, dizia-se que o Governo estava agarrado ao poder, mas as oposições poderiam derrubá-lo a qualquer momento. Agora é o inverso. O que é natural é que o Governo queira sair, para que sejam outros a ficar com o ónus do "trabalho sujo". E as oposições, para o evitar, hão-de recorrer à técnica do assador: melhor do que removê-lo, é queimá-lo em lume brando - serenamente, sadicamente, durante quatro longos anos. Até esturricar.
Pirámos de vez.
d.amaral@netcabo.pt
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Daniel Amaral, Economista
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Pirou de vez.Bruxelas dirá que os governos servem para governar e não o fizeram em cinco anos .O estatuto de cigarra gastadora não é aceite por Almúnia.Felizmente..
Excelente antevisão a sua.Aguardemos o que nos espera.
1. O Autor faz uma análise correcta da situação actual , como sempre, mas "recusa-se" a fazer ESCOLHAS. É um mal muito espalhado neste País.
2. Infelizmente, em termos de crescimento do PIB, os anos 2011/2017 não são uma "incógnita". Ao contrário, são bem conhecidos por TODOS.
3. Em Portugal , negam-se as evidências até ao humanamente possivel. Depois, quando dá jeito, lá se reconhece uma parte da verdade dos factos. Sempre com paninhos quentes. Quem vai assar não são os Governos nem as Oposições. Quem vai assar são os Portugueses Jovens cujo futuro foi QUEIMADO.
4. Para fugir a um diagóstico muito fechado era preciso fazer já ESCOLHAS CLARAS. Mas, até os melhores , os mais puros e mais decentes se recusam a
fazer ESCOLHAS. É preciso um sobressalto republicano.
Sempre fáceis, perceptíveis, esclarecedoras e agradáveis de se lerem as crónicas deste Sr.
teixeira dos santos deveria ter dito a mesma coisa que disse a minstra francesa: não aceitamos esse calendário. assim o resultado está à vista. a frança e outros países que não foram em cantigas terão mais tempo para fazer regerssar as contas à normalidade do antes da crise. não sei é como é que se aceitam os vários calendários propostos pelo comissário para diferentes grupos de países.
Como se viu,hoje,na Assemb.Repub.a Oposição começou a estorrar o Governo,só que não resta a este outra solução :não permitir que seja a Oposição a determinar a governação do País em vez de fiscalizar como lhe compete.Por este andar cheira-me a eleições antecipadas antes que o Governo se queime em lume brando,como diz o articulista,com muito apropósito.