O alvo fácil

04/02/09 00:01 | António Costa 



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A banca nacional voltou a estar no centro da discussão por causa do aumento do custo de crédito concedido às empresas nacionais, ao que parece, nas palavras das associações de empresários, no limite da agiotagem.

Este é um discurso que ‘vende', porque o país está em crise e porque os banqueiros aparecem todos os dias como os ‘maus da fita' - valha a verdade, às vezes por responsabilidade própria.

Seria, portanto, fácil alinhar no discurso dominante contra a banca e a favor dos outros, leia-se das empresas e das famílias que não conseguem crédito ou que, quando o conseguem, têm de pagar um preço mais elevado. Mas não seria sério, nem sequer rigoroso ou, então, tudo o que se tem dito e escrito sobre a escassez de crédito é uma grande mentira ou, se quisermos, uma cabala do mundo financeiro contra o mundo da economia real.

A verdade é que, por várias razões, nomeadamente uma crise de confiança dentro do próprio sistema financeiro, verificou-se uma diminuição do dinheiro disponível para financiar a economia mundial. E isto passou-se, obviamente, também em Portugal. No caso da banca portuguesa, a dificuldade de acesso a fundos é tanto mais grave quanto o país tem um nível de poupança que não chega para fazer face aos investimentos e, também por isso, um défice externo significativo. Tudo somado, a banca nacional paga muito mais caro o acesso a ‘funding' internacional e tem necessariamente de fazer repercutir o seu custo no que cobra a empresas e famílias. É este o preço que o país paga quando prefere ‘fazer de conta' ou, dito de outro modo, quando não há um nível de vida ajustado à realidade: o ajustamento faz-se à força, como o que estamos a viver.

Este quadro financeiro tem como consequência uma maior selectividade nos empréstimos a empresas e, ainda por cima, a um preço mais elevado. Até porque, além do prémio de risco pelo empréstimo, a banca tem de cobrar um prémio de risco pela possibilidade de, dentro de meses, não ter acesso a novos financiamentos, realidade que pode estar mais próxima do que o que se pensa.

O Governo português - à semelhança de outros no mundo - criou avales e garantias para dar melhores condições à banca no acesso a fundos, mas isso, por si só, não é suficiente. A banca não pode, nem deve, emprestar para tudo e a todos, sob pena de alimentar agora a economia real e colocar-se, ela própria, à beira do precipício dentro de meses. Nem pode, sequer, diminuir o nível de exigência na concessão de crédito a clientes, pelo contrário.

Como é que é possível sair deste imbróglio? Em primeiro lugar, não há saída possível sem uma estabilização definitiva do sistema financeiro; depois, as empresas devem apresentar projectos de investimento - os que existem - focados e rigorosos na avaliação da rentabilidade. O dinheiro, esse, vai aparecer.


Comentários

ramalhete, porto | 04/02/09 11:48
o que não aparece é a confiança, muitos incentivos estão pura e simplesmente a ser devolvidos, ninguém acredita em ninguém , a era EXCELL em que tudo era lucro , tudo era a subir acabou , venha a nova ordem , venha a nova ética ....


Cheli&Chela, | 04/02/09 11:40
O Estado tem de começar a pensar em baixar impostos e é melhor começar pelos Indirectos, para estimular a procura. Se julga que vai lá com a baixa dos juros (Euribor), ou com incentivos fiscais à oferta..não chega lá. O que existe é uma CRISE POR EXCESSO de OFERTA ! No crédito não são de esperar melhorias. Toda a Banca está escaldada: com ela própria, e com os devedores que não pagaram.


Mrrm, | 04/02/09 11:14
Diz-se a "banca nacional" e as "empresas nacionais." Isto num assunto em que, por natureza, cada caso é um caso, mesmo se o banco e a empresa forem os mesmos. A evidência do dia-a-dia até revela bancos que, por bom motivo da sua boa gestão, têm dificuldade em colocar tanta liquidez no mercado, Têm um problema de "overfunding" e estão a colocar crédito a preço baixo nunca registado em Portugal, a taxas de, por exemplo 0,9% (zero ponto nove porcento, lerem bem). Claro que estes casos serão extremos também de boa gestão da parte das empresas mutuárias destes fundos. A ZOPA(zone of probable agreement) nestes casos deceu, e nos outros subiu. As empresas ncionais, em vez de andarem a choramingar mais garantias e intervenção ao governo, podiam começar a trabalhar por exemplo no risco que correm ( e que apresentam) e no que fizeram com créditos passados. Tanto carro de luxo vem donde? E a sua produtividade é qual? E a sua ética laboral? Disso não se fala porquê, se está directamernte associado ao custo do dinheiro. Não estou a defender a banca, estou a defender a boa gestão empresarial que é a única forma das empresas se defenderem do dito ágio do ouro. Sem terem que pedir batatas a ninguém. MMartins-Sintra


Realista, Porto | 04/02/09 09:21
Neste caso, como em muitos outros, a razão não está só num lado ou no outro, está no meio. Mas....é capaz de estar mais do lado das empresas. É conhecida a apetencia dos nossos bancos. Mesmo antes da crise nós já tínhamos as mais altas taxas de juro.


vg, | 04/02/09 00:23
Não sei se percebi.O paií precias de crédito externo,.O estado paga os certificados 1,46 (liquido)e os BT a 10 anos a 4,75.Os bancos pagam 3 a 4,5 a depoósito a prazo.A "euribor" está 2,05.As empresas(boas)pagam entre 9 e 11. .Já não se fala em poupança.Ela virá,forçada,como antecâmara da deflação


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