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24 Fev 2014
Sandra Clemente

Novo ciclo

Sandra Clemente

Feliz Ano Velho é o título de um livro brasileiro escrito após o autor ter ficado tetraplégico. A nostalgia que o título pressupõe faz-me lembrá-lo, aqui, a propósito do congresso do PSD e de tudo quanto foi noticiado sobre as suas moções.

Esta geração do PSD no Governo e no partido é a primeira pós cavaquismo, no sentido que não foi protagonista naquele tempo. O país que Cavaco encontrou quando chegou ao poder era um país pobre, rural, com pouca formação e sem oportunidades. Com a entrada na CEE veio o crescimento económico e uma evolução extraordinária na vida dos portugueses.

Por tudo isto a relação dos cidadãos com o poder era mais hierarquizada, vertical, dos mais para os menos esclarecidos. Por mais "felizes" que estes anos tenham sido não se repetem. A sociedade portuguesa de hoje é muito diferente. Vive a era da globalização, tem muitíssimo mais formação e informação, é opinativa a todo o tempo nas redes sociais, tem preocupações de outro tipo, uma relação mais horizontal com o poder e um conceito menos estatizado da política. Prova de tudo isto é o recente estudo da eurosondagem em que 42,5% dos portugueses atribuem a culpa da austeridade à realidade exterior ao país e à dívida que Portugal foi acumulando ao longo dos anos.

E, embora 46,4% considere que a inversão de rumo depende do Governo, já 43,2% acha que depende mais da vontade da Alemanha, da ‘troika' e de evoluções exteriores. Daniel Innerarity, cientista político, diz que falamos de inovação económica, científica, tecnológica mas nunca política.

O PSD que sai deste congresso governa, há dois anos, este país, cujos problemas os eleitores conhecem muitíssimo bem, e começa agora um novo ciclo apresentando-se a eleições europeias e, novamente, legislativas. É profissional. Tem que continuar a reforma do Estado, fazer a reforma do sistema político e exercer o governo cada vez mais na lógica do compromisso, do acordo. Isto é inovação política: pensar a política e exercê-la adaptada às circunstâncias reais. Sob pena de ela se tornar socialmente irrelevante.

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