Ainda há gerações de portugueses a pensar o dinheiro em contos de reis, e o euro com tamanha falta de fortuna.
Será que voltaremos a trocar dinheiro assim que passarmos a fronteira nacional? Escudos por pesetas, escudos por marcos alemães? Eis a questão. A crise ofereceu-nos boleia numa máquina do tempo, para rever o processo de construção da União Monetária. Ninguém diz, nem mesmo os saudosistas alemães, mas muitos já pensaram que talvez estejamos perante a falência - ou a falácia - do único elemento realmente unificador da UE.
Os problemas teóricos e técnicos estão identificados há muito tempo: como é que abdicámos todos da soberania monetária, do instrumento de política cambial tão relevante na resolução de crises económicas, sem que tal abandono seja acompanhado de igual abdicação de instrumentos orçamentais e de política micro e macroeconómicas únicas? As relações comerciais dos vários Estados da Eurolândia com terceiros são desarmónicas, e con- sequentemente as necessidades de valorização ou depreciação da moeda são divergentes. Andamos a inventar desvalorizações artificiais porque precisamos do resultado, mas não temos a moeda. E não há um único indício de unidade na condução dos assuntos económicos ou orçamentos unidos nas regras, no seio da União Europeia. Não há senão a solidariedade difusa dos fundos europeus, e agora a solidariedade imediatista na desgraça.
Na prática, quais são as datas de peregrinação obrigatória nesta boleia na máquina do tempo? Recordemos os critérios de convergência que todos os participantes no euro tiveram de cumprir. As insónias provocadas pela meta do défice. E afinal, havia outra... preocupação relevante e secundarizada: a dívida. Se eu fosse adepta das teorias da conspiração, diria que nos apanharam o calcanhar de Aquiles. Mas não sou. Na verdade, os países do sul convergiram artificialmente. Será que alguém se recorda que a Grécia não conseguiu integrar o pelotão da frente? E agora, qual castigo dos Deuses da moeda, pela mão do Fundo de Emergência e do FMI e fazendo dos irlandeses exemplo, a praga dos juros da dívida espalha-se pela periferia.
Praga, castigo ou conspiração, a verdade é que mal se ouviu a sigla FMI na Irlanda, os "mercados" desabaram sobre nós, periféricos. As taxas de juro sobre a dívida espanhola abandonaram a estabilidade e dispararam, e os italianos já são uma preocupação financeira. Não sou adepta do FMI. O Fundo é pródigo em receitas cegas e cortes plenos de cataratas. Não vejo soluções onde dê entrada, por mais reformas que tenham sido tentadas e por maior neutralidade ideológica que se queira dar às políticas do Fundo. Já diz Stiglitz há muitos anos.
Mas haverá vida para lá do euro? Até que a Alemanha nos tire a todos o tapete, podemos apenas fazer por nós, parar de brincar às crises internas e refundar uma economia que passou pela revolução mas ficou na década de Abril.
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Marta Rebelo, Jurista
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