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Pedro Carvalho

Não há almoços grátis

30/03/10 00:04 | Pedro Carvalho 



De onde vêm os bebés? De Paris, trazidos por uma cegonha. E de onde vem o dinheiro? Dos bancos, que o vão buscar a Paris, a Londres, a Amesterdão e por aí fora.

Durante uma década, o país deixou de se questionar de onde vinha o dinheiro, e tudo era comprado a crédito: casas, carros, frigoríficos, microondas e por aí fora. Resultado: no final da década, os portugueses (empresas e famílias) já deviam mais de 260.000.000.000 euros à banca.

E onde é que os banqueiros vão buscar tantos zeros para emprestar? Vão buscá-los lá fora, a outros bancos e ao próprio banco central, e não o fazem a custo zero. Resultado: a nossa dívida ao estrangeiro já representa o triplo do valor do nosso PIB, sendo que aqui o Estado também contribui para desequilibrar estas estatísticas.

Quem tem de manter os balanços equilibrados são os bancos, que têm de prestar contas aos accionistas. O dinheiro actualmente é um bem escasso e cada vez mais a banca tem mais dificuldade em encontrar ‘funding' barato para depois emprestar aos clientes. Resultado: a torneira de crédito está a fechar e os bancos estão a compensar os juros baixos e o esmagamento da margem com o aumento das comissões e com a subida dos ‘spreads' cobrados aos clientes.

Resultado: desde Janeiro de 2008, os ‘spreads' mínimos praticados, por exemplo, no crédito à habitação já triplicaram de valor, o que está a dificultar a vida de quem quer comprar casa.

Esta dificuldade em obter financiamento bancário, bem como a descida na avaliação dos imóveis para valores abaixo do preço do mercado fazem com que as vendas de casas tenham caído de forma acentuada nos últimos meses, o que não é necessariamente mau.

Resultado: o mercado de arrendamento está a dar sinais de recuperação e as imobiliárias estão a trocar o negócio de fazer casas pelo da reabilitação.

É o país, o mercado e a banca a ajustarem-se à realidade. Depois de tantos anos a viver acima das nossas possibilidades e a gastar aquilo que não produzimos, é chegada a altura de o país perceber que não há almoços grátis. Que o digam as Islândias, os Dubais ou as Argentinas desta vida que continuam a recuperar da indigestão do excesso do crédito. Já somos crescidinhos para perceber que a única coisa que vem de Paris é dinheiro emprestado.

 




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