Que Manuel Alegre percebe pouco de economia não é novidade para ninguém. Isso esteve outra vez à vista no discurso de lançamento da sua candidatura, ontem, no Porto...
Que Manuel Alegre percebe pouco de economia não é novidade para ninguém. Isso esteve outra vez à vista no discurso de lançamento da sua candidatura, ontem, no Porto: ele é a forma como apenas aflora questões como o défice, a maneira simplista como critica as agências de ‘rating'... De facto, não está à vontade nas questões económicas. Mas vale a pena perguntarmo-nos: e não poderá ser essa uma vantagem na corrida presidencial que se avizinha? A resposta pode muito bem revelar-se afirmativa. Depende do seu engenho e arte de dar a volta ao texto. E por vários motivos, que a seguir se explicam.
1. Por razões eleitoralistas. Porque o facto de não ter um pensamento eminentemente económico lhe permite olhar para certas questões que são caras aos seus votantes naturais, como os aumentos nos apoios sociais, com uma liberdade que de outra forma não teria. Ficaria, pelo menos, com problemas de consciência.
2. Por razões de marketing. Porque o segmento da economia, dos problemas e preocupações nessa área, está preenchido. À sua direita por Cavaco, e à sua esquerda pelo candidato que o PCP apresente (e apresenta sempre um, nem que seja para fazer número).
3. Por razões políticas. E aqui falamos na verdadeira acepção da palavra. Alegre pode significar o regresso à ideologia e aos valores, que tão arredados andam das nossas cabeças, e das dos políticos, atafulhados que estamos todos nesta crise que não parece ter fim. Alegre - ironia das ironias - pode parecer uma lufada de ar fresco. E essa é uma arma contra o tecnocrático Cavaco - não foi à toa que repetiu esse adjectivo várias vezes no discurso. O que nos leva ao último motivo...
4. Por razões poéticas. Não é muito rebuscado, mas Alegre aproveitou para falar do "défice de sonho e de esperança no futuro". Um ‘sound bite' que deve calar fundo em muito boa gente. Nomeadamente no eleitorado jovem. Curiosamente, ontem, tanto Alegre como Cavaco resolveram citar Guerra Junqueiro a propósito das comemorações da República. Nos tempos que correm já nenhum estereótipo é de confiança. E ambos têm de ter cuidado com isso na corrida que se avizinha.
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Catarina Carvalho, Directora-adjunta
catarina.carvalho@economico.pt
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