É mesmo este ano o fim do mundo? O milénio começou sob a ameaça do Apocalipse: era o ‘bug’ do milénio, que ia derreter os nossos computadores à meia-noite de 31 de Dezembro de 1999.
Nada aconteceu, mas de então para cá sucederam-se os avisos: gripe das aves, gripe A e o persistente aquecimento global, até agora incapazes de cumprir a promessa. Ocorre, no entanto, que este ano há um estranho alinhamento de previsões apocalípticas: é o calendário maia que termina (a 21/12/2012), com ele trazendo o fim dos tempos; é o Livro Perdido de Nostradamus, que indica um alinhamento do Sol portador do Apocalipse; são certas manipulações do número da Besta (666, como é apresentado no livro do Apocalipse), que indicam 2012 como o do fim do mundo terreno.
Enfim, tudo coisas preocupantes. Mas até lá talvez tenhamos ainda muito com que nos entreter. Comecemos por Novembro, quase no termo do ano mas ainda antes da data fatídica de 21/12: o mais famoso redentor vivo, Barack Obama, verá a sua aura divina ser muito prosaicamente confrontada com uns papelinhos deitados em caixas pelo povo americano (ou com uns furos numas máquinas, como se usa lá na América). Diga-se que a dita aura se chamuscou já muito: o salvador de 2008 é hoje um vulgar político impopular, a braços com uma economia que teima em não recuperar solidamente; um homem que abandonou as prédicas taumatúrgicas, socorrendo-se em vez disso da narrativa do antecessor Bush (a besta, com maíúscula e minúscula): louvor ao Iraque, abandono do Afeganistão, mudança de regime no Médio Oriente, ameaças ao Irão, Guantánamo, tortura, relações tensas com a Rússia... Se vencer as eleições, não será pelas suas virtudes salvíficas mas por ausência de candidatos republicanos capazes. E assim teremos a América e o mundo de regresso a cálculos mais comezinhos e ao realismo.
Realismo que será bem preciso para lidar com a grande incógnita de 2012: sobreviverá o euro ao ano? Mesmo que sobreviva, muito terá de mudar na União Europeia e, por aí, no mundo. Quando tanto se fala da Europa decadente, ela vai voltar a estar no centro do mundo. Sempre esteve, na verdade, desde há pelo menos seiscentos anos. A UE enfrenta duas escolhas fáceis de formular mas praticamente impossíveis de adoptar: fim do euro ou integração orçamental (e, logo, política). Sobre o fim do euro muitas especulações apocalípticas estão disponíveis. Mas sobre a integração de que tantos gostam nem por isso, mesmo se pudesse ser ainda mais trágica: o que aconteceria quando 28 países (da Bulgária à Alemanha, passando por Portugal, a Suécia e a Croácia) tivessem de partilhar grandes decisões políticas? E contudo, uma destas coisas terá de acontecer, a menos que alguém de fora (a América? A China?) se responsabilize pela dívida europeia. Quem o fizer terá grande ascendente sobre o continente, mas também uma bomba nas mãos. Boa sorte.
A crise europeia não é senão um capítulo da grande crise económica ocidental. Fora do Ocidente, no entanto, não se fala de crise: na China, na Índia, no Brasil, na América do Sul e até na Rússia vive-se uma prosperidade sem precedentes. 2012 será o ano em que continuaremos a perguntar-nos se isto se sustentará no futuro, alterando o equilíbrio económico entre o Ocidente e o resto. Talvez convenha perceber que as economias fora do Ocidente precisam dele para continuarem a expansão. A crise ocidental levou-as a substituir a procura externa pela interna. Mas os riscos são diversos. Por um lado, há bolhas especulativas à espera de rebentar. Por outro, a mudança exige grandes transformações sociais: em vez da mão-de-obra servil usada em produtos de exportação, terá de nascer uma classe média cada vez mais exigente para com os seus líderes. O caso do Japão antecipa os perigos: depois de décadas a crescer baseado numa mistura de tecnologia e mão-de-obra barata, o Japão é hoje uma democracia disfuncional com uma economia estagnada e um extraordinário encargo de dívida devotado a manter os súbditos do imperador satisfeitos.
Para além destas grandes histórias, há outras pequenas-grandes histórias a que prestar atenção. Por exemplo, o que acontecerá a Nicolas Sarkozy nas eleições de Abril-Maio? Será ele o segundo presidente da V República a não conseguir a reeleição? Os opositores não entusiasmam, mas a crise europeia (no centro da qual ele está) pode ser mais forte que tudo. E a famosa Primavera árabe? Florescerá ou resultará num longo Inverno fundamentalista? Isto para não falar daqueles sítios (Síria ou Iémene) onde nem sequer se deixa florescer nada. Continuarão assim? E o Afeganistão e o Iraque sem americanos? E o Irão, com a sua hipotética bomba nuclear? É o cheiro a Apocalipse pela manhã.
E há, claro, o nosso cantinho. Austeridade vai ser a palavra do ano, acompanhada da questão: será suficiente? Ou mesmo: será a política correcta? Sabemos apenas que é a política imposta pelos nossos credores. Mas são legítimas as dúvidas sobre se austeridade sem desvalorização cambial não aprofundará a recessão e o desemprego, colocando-nos num beco sem saída. Se o ano for de programas correctivos de austeridade em sucessão, não se exclua a possibilidade de uma legislatura curta, seja para reforçar a actual maioria seja para a substituir. Ficaremos a saber também se os portugueses continuarão a adiar a desobediência civil, com a sua extraordinária paciência perante a adversidade. E se haverá mais bambúrrios envenenados à espera, como o da compra da EDP pela China.
Enfim, tudo será irrelevante se o mundo efectivamente acabar este ano. Mais um sinal: a hipotética libertação de Charles Manson, outra encarnação da Besta e outro crente no Apocalipse iminente. Um juíz da Califórnia decidirá em 2012 se o assassino de Sharon Tate merece liberdade condicional. Mesmo com Manson na rua, é de arriscar uma previsão: o mundo não vai acabar em 2012. Que é uma óptima previsão: caso se verifique ser verdadeira, serei olhado como um sábio visionário; caso se verifique ser falsa, ninguém estará cá para confirmar.
____
Luciano Amaral, Professor Universitário
Comentários (2)
Publicidade
Acções do PSI 20
Última Hora
Comunidade
- Queda dos subsídios de desemprego anima Wall Street 21:11
- DECO propõe à troika proibir o agravamento do 'spread' 20:54
- Barclays, BESI, Citi e Crédit Suisse confirmados para venda da TAP e da ANA 20:36
- Sonae Capital duplica prejuízos no trimestre 19:52
- JP Morgan e Barclays vendem 41 milhões de acções da EDP 19:51





ofim não poder ser em 2034. hein
fim do mundo qual e o fim do mundo podia acontecer da aqui a 1.bilhão de tipo 3012 quanto vai ser a temperatura 97 ou 1.ooo graus como eu vou jogar futebol na escolinha do santos o dia do fim do mundo podia ser 29\02\3012 vou ficar jogando futebol ate o fimdo mundo chegar.