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Pedro Adão e Silva

Muito barulho para nada

24/11/09 00:03 | Pedro Adão e Silva 



Cinco anos passados, muita contestação depois e muito desgaste para as várias partes, os indícios de que a avaliação de professores regressará ao ponto onde se encontrava em 2005 são manifestos.

Se assim for, a conclusão só pode ser uma: muito barulho para nada.

Convém recordar algumas coisas. Em primeiro lugar, os professores estiveram em guerra por causa da avaliação, mas, muito provavelmente, esta foi um pretexto para mitigar a verdadeira causa da luta: a divisão da carreira docente, com a criação do "professor titular" (o que colocava fim às progressões automáticas, limitando o acesso aos níveis salariais mais elevados, e confrontava a natureza horizontal da carreira). Depois, os professores são a maior classe profissional da administração pública e mais de metade dos cerca de 140 mil está nos escalões mais bem remunerados - a massa salarial consome 80% do orçamento, correspondendo a 3% do PIB; ao que acresce que, se nada for feito, o ritmo de crescimento da despesa com salários consumirá todos os recursos disponíveis para a política educativa.

Neste contexto, o governo tem pouca margem de manobra negocial, por força dos sucessivos recuos (com a assinatura do memorando de entendimento e com as alterações mais recentes no estatuto da carreira docente), e essencialmente porque é minoritário.

Há hoje basicamente três cenários. Um optimista, que assenta no pressuposto que os professores já perceberam que a avaliação é um adquirido, com uma categoria na carreira onde não chegam todos e estão empenhados em tornar exequível o modelo de avaliação já em prática. Um segundo em que é criada a ilusão de que tudo irá mudar, ou seja, são criadas expectativas nas escolas, que depois, caso sejam defraudadas, farão regressar a contestação, mas de modo ainda mais intenso. Finalmente, o cenário que parece em vias de se concretizar: o governo precisa tanto de um acordo que vai ceder em questões inegociáveis.

A questão será, por isso, saber até onde é que vai o recuo. Todos os partidos defendem o acesso ao topo da carreira sem restrições. Resta saber se as negociações em curso acabarão apenas com o nome "professor titular" ou se, mudando o nome, se mantém o acesso limitado ao último escalão da carreira. Esta é a primeira linha de fronteira, mas há outras: o prolongamento dos horários e as aulas de substituição.

No fim, fica uma certeza. Cinco anos passados, muitos erros na gestão política e na aplicação do modelo de avaliação depois, preparamo-nos para voltar ao lugar em que nos encontrávamos em 2005, mas em piores condições. Ou seja, a carreira de professor continuará a beneficiar de um estatuto excepcional, o que limita os recursos financeiros para o investimento na escola pública. A inabilidade do anterior governo é, em parte, causa desta situação. Agora, como se não bastasse, todos os partidos preparam-se para assumir a sua quota parte de responsabilidade.
____

Pedro Adão e Silva, Professor universitário


Comentários

luis, | 24/11/09 07:26
A avaliação acabou, foi pura e simplesmente atirada ao lixo com a cobardia do governo e o populismo irresponsável da oposição.Continuaremos com uma classe docente que olha para o sistema de ensino como se este lhes pertence-se e os próprios fossem a razão da existência do sistema.A classe política escolheu defender os interesses instalados em detrimento dos interesses do País.


FT, | 24/11/09 08:07
Voltar ao ponto de partida, sempre é melhor que nada. Os profs nunca quiseram ser avaliados, seja qual for o modelo de avaliação.


PROF 1, | 24/11/09 12:36
A "Avaliação dos Professores" é a forma genérica para tratar e designar na imprensa um assunto que é o da Estrutura da Carreira interrompida em 2005.
De 2005 a 2007 A Ministra suspendeu a carreira e congelou progressões. Nesse periodo de tempo impôs um modelo estruturado assim: colocou todos os 150 000 professores num mesmo saco, independentemento da carreira qualificações, experiencia profissional, formação etc. e Disse apresentem-se a concurso para Titular apenas com o vosso Curriculo dos últimos sete anos!!! lançando para as urtigas vinte e mais anos de serviço(qualificações cargos e funções) a DEZENAS de milhares de professores valorizando a prática recente.Porque razão o curriculo dos ultimos sete anos? E não o de toda a carreira? Havia alguém no ministério com filho/a recém professor...
Resultado alunos agora professores aparecem à frente de antigos professores seus... aquem vão avaliar!! Quem dava um Horário incompleto e o completava com um cargo foi duplamente pontuado em relação a que tinha horário completo com aulasEtc. Etc. ISTO É QUE VAI SER (esperamos) ABANDONADO.
O articulista sabe isto. O problema dele é outo...
Reposta uma carreira assente em critérios justos venha a avaliação.
Não temos medo da avaliação. Defendemos como nas empresas avaliação= a remuneração, se possivel com revisão trimestral de objectivos....
Mas ATENÇÃO na DOCÊNCIA (não gostam do termo! estão a acabar dentro da escola professores de ética substituidos por uma ética low cost de carreira) NÃO HÁ NEM HAVERÁ NUNCA DIVISÃO FUNCIONAL,,, a não ser no Director ( por sinal são em 99% os antigos directores executivos...porque será!!!???) que não dá aulas
Sabem dizer porque nunca houve nem há prémio de assiduidade no ensino e as empresas o pagam.... sabem porque no ensino não há décimo quinto e sexto mês quando se ultrapassa objectivos...não é por falta de avaliação...é porque a avaliação era e vai ser administrativa, tinha e tem em vista a tesouraria... o orçamento do Estado. Eu fui avaliado neste periodo...o mesmo que no passado: a diferença a minha "avaliadora" estava amarela...porque seria!?
O Pol Pot pegou em crianças deu-lhes uma Kalach e mandou-os guardar os adultos corrompidos pelo colonialismo e pela vida urbana e capitalista! o resultado...gulags O Mao da revolução cultural fez o mesmo..pôs os chineses urbanos a caçar pardais...
A avaliação que dizem que vai acabar era INEXEQUIVEL e por definição não existia e eu fui avaliado!!!
Deixemo-nos de farsas senhor articulista
Uma laranja vista de fora caça comentários destes...vista por dentro...


Zé Carlos, Lisboa | 24/11/09 13:13
Até onde vai o recuo do Governo? Mas que pergunta, o recuo irá até onde for necessário para o PS se manter no poder. Claro está que a oposição no poder faria exactamente a mesma coisa. Quais principios, qual bem comum!


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