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06 Mar 2013
Bruno Alves

Mudar?

Bruno Alves

Após a manifestação do passado dia 2, não faltou quem afirmasse que, perante o descontentamento manifestado nas ruas, o Governo teria de mudar de política.

Tendo em conta o historial do executivo, que rapidamente se esquece do que foi dito na semana anterior sempre que a "rua" faz barulho, a expectativa até é razoável.

Já não o é, no entanto, esperar que o descontentamento desapareça. Se os "movimentos" que organizaram a manifestação têm um programa, o mesmo não se pode dizer de uma parte significativa de quem saiu à rua: protestam, não contra uma política e a favor de uma alternativa, mas contra a situação do País, que não vai mudar independentemente da política seguida ou do Governo do dia.

Na sua origem, o "Estado social" tinha como propósito garantir um mínimo de condições de vida a quem por si só não tinha rendimentos para isso. Por cá, teve como objectivo tornar Portugal num país "como os outros": durante décadas, através da Educação e da Saúde "tendencialmente gratuitas", dos incentivos ao crédito à habitação, de empregos no sector público, etc., o Estado serviu para dar aos portugueses padrões de vida para os quais não havia riqueza no país; o Estado não redistribuía dinheiro dos mais ricos para quem menos tinha - espalhava pelo maior número de clientelas possível o dinheiro que não havia.

Só o pôde fazer enquanto houve quem estivesse disposto a nos emprestar dinheiro, e é isso que hoje escasseia. O Governo está a fazer um mau trabalho, por falar em reformas sem as fazer. Mas as "alternativas" que por aí circulam, a começar nas "Cinco Medidas" de Seguro, em nada mudarão a realidade. Os "cortes" governamentais empobrecem os portugueses, mas sem eles ou sem aumentos de impostos (que não empobrecem menos), ninguém nos emprestará o dinheiro que não temos e de que precisamos.

Quer se deixe pressionar pela "rua" quer não, o Governo não acabará com o descontentamento. Por isso, mais valia que fizesse verdadeiras reformas em vez de meros remendos desesperados. Sem elas, continuaremos a viver da "gentileza de estranhos", e a lamentarmo-nos sempre que a deixarem de manifestar.

Bruno Alves, Doutorando IEP-UCP

 

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