Sou dos que consideram que a inflação é um mal económico e que, deixada instalar, rapidamente se torna viciante e viciosa.
Por isso mesmo, desde há muito percebi a importância de um banco central independente, que pudesse concentrar-se na sustentabilidade a médio e longo prazo. Independente, entenda-se, do processo eleitoral e do jogo partidário que este implica, mas politicamente responsabilizável.
Por isso, sempre tive também grande compreensão pelos receios alemães, fundados numa dramática experiência de hiperinflação, nos anos 20, que teve consequências devastadoras na sociedade.
Porém, os grandes problemas na gestão política raramente têm a ver com a escolha entre o bem e o mal. Surgem sobretudo quando se está perante a escolha entre dois males. Quando assim é, são necessárias pelo menos duas cautelas. Primeiro, uma cuidada aferição da malignidade de cada opção, por forma a identificar, com razoável clareza, qual o mal menor e o mal maior.
Segundo, a clarividência necessária para não sucumbir ao fundamentalismo moralista de considerar que mal é mal e, como tal, ambos devem ser recusados, pois a escolha de qualquer deles implicaria sempre a cedência ao mal e, como tal, seria sempre "pecaminosa". Esse fundamentalismo não só é perigoso, do ponto de vista prático - pelas consequências potencialmente desastrosas a que pode conduzir -, como é moralmente errado, porque assenta num vício de raciocínio. O vício desse fundamentalismo consiste em supor que, recusando-se escolher um dos males, se isenta da responsabilidade moral pelas consequências supervenientes. Ora, este é um entendimento profundamente errado do dever moral. Sempre que se está perante uma escolha, está-se perante uma decisão ética (por natureza e definição), não existindo, por isso, nenhum caminho moralmente des-responsabilizante. Mesmo a suposta "não escolha" é sempre uma escolha e influencia o curso dos acontecimentos. Constitui, por isso, responsabilidade moral para quem a pratica. Mais concretamente e no caso em que se esteja perante dois males, a recusa de escolher activamente o mal menor, implica irrecusavelmente a escolha - "passiva", mas escolha! - do mal maior. A responsabilidade pelo resultado é, pois e sempre, moralmente iniludível, por mais que se pretenda purificar a atitude de recusar escolher. Pense-se no que teria acontecido à Europa e ao Mundo, se as democracias ocidentais tivessem recusado o mal menor - aliança com Estaline - na segunda guerra mundial...
O dilema que as autoridades europeias - governos e BCE - têm hoje pela frente é um dilema moral desta natureza. Se persistirem na recusa do risco de inflação - actualmente desprezível, mais distante no tempo, de consequências mais controláveis, e, por tudo isso, o mal menor - estarão a escolher o caminho de uma generalizada crise bancária, de uma provável depressão económica e da desintegração europeia - com consequências mais iminentes, próximas, profundas e irreversíveis, ou seja, portanto, o mal maior. Não haverá meio termo. Este é um dos raros momentos históricos em que os protagonistas não conseguirão passar sem registo. Seja qual for a escolha que façam - activa ou passiva - a História não os isentará da responsabilidade moral e inscreverá os seus nomes na memória futura.
Mas não nos iludamos: seja qual for a opção europeia, a Portugal não resta alternativa que não passe pela austeridade orçamental, reformas estruturais e desvalorização real. Até o tempo para o ajustamento depende do que "a Europa" nos conceder...
PS: Aos "surpreendidos"/distraídos, antes que comentem: Cf. "Salvar o Euro", JN, 11/03/10
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Vitor Bento, Economista
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