Comunidade
Estando atento aos diversos acontecimentos da nossa sociedade, política e economia, parece-me, infelizmente, muito actual e presente o discurso de Nicolau Maquiavel de alerta ao povo para os perigos da “tirania”.
Ele escreveu na sua obra mais mediática, "O Príncipe", "...porém, a maneira como se vive está tão afastada da maneira como se devia viver, que aquele que deixa aquilo que se faz por aquilo que deveria fazer-se aprende mais a perder-se que a salvar-se, porque um homem que queira em tudo professar o bem arruina-se entre tantos que não são bons". Não será este o maior problema da nossa sociedade? Uma total inversão dos verdadeiros valores!
Bom, apesar deste contexto eu sonho com uma realidade de ética no trabalho. O período anterior à presente crise falava-nos de um mundo de trabalho pragmático, objectivo, técnico e privado de moral, como pudemos constatar. Agora, julgo que se começa a sentir a necessidade de novos comportamentos, mais éticos, e sobretudo no ambiente de trabalho. É tempo de entrarmos na era da humanização, no primado das pessoas, em que é privilegiado o desenvolvimento da identidade pessoal nas várias experiências profissionais e empresariais. Por isso, nunca como agora, foi tão importante a atenção às relações psicológicas interpessoais, à gestão de conflitos, às técnicas de motivação e à tentativa de fortalecimento das personalidades dos colaboradores. Estará o(a) estimado(a) leitor(a) a pensar, mas primeiro temos que salvar a empresa, ter um balanço robusto e equilibrado, que permita a competitividade a médio prazo. E eu estou plenamente de acordo com essa prioridade, mas simplesmente acredito que é insuficiente se não houver uma maior consciência ética. Não podemos ver o problema como mera sobrevivência, mas também no papel que uma empresa poderá ter na expressão de talentos individuais, na realização de sonhos, alimentando motivações, força, energia e entusiasmo que poderá servir de inspiração a comportamentos éticos e tornar-se num "projecto maior", onde todos são elementos activos, onde podem crescer e desenvolver continuamente as capacidades pessoais e organizacionais. E estas mudanças têm que partir do topo. Dos gestores, dando o exemplo e incentivando uma nova cultura empresarial, que deverá ser muita mais aberta, flexível e exigente. Para isso é fundamental que se implemente uma gestão com base na meritocracia, assente no mérito das pessoas, onde as posições hierárquicas são conquistadas com base no merecimento e com uma predominância de valores associados à educação, formação e competência. Este desafio de que falamos é enorme, pois quase implica uma conversão do "coração do Homem", mas é necessário para evoluirmos e nos tornarmos uma sociedade e uma geração em que os nossos filhos e os nossos netos se orgulhem. E nunca é tarde, vejamos o recente caso de Susan Boyle, de 47 anos, desempregada, que emocionou o mundo com a sua humildade no programa "Britain's got talent". Recebida com cinismo, risos e desconfiança, pela sua modesta aparência, ela exaltou o público e calou o júri quando começou sua interpretação de ‘I dreamed a dream', do musical "Les miserables". É um exemplo claro de como a nossa sociedade faz juízos de valor antes do tempo. E isto não acontece apenas em programas de entretenimento, é usual entre grupos, em organizações, nas empresas, na política, ... faz parte das nossas vidas. Mas tem que ser erradicado.
Já reparou que o trabalho nas empresas, de um modo geral, tornou-se num lugar agressivo, mau, esgotante, fonte de angústias e depressões ? O colega é sempre um inimigo potencial, a comunicação é falseada, não é autêntica e para se fazer carreira é de algum modo necessário boicotar a dos outros colegas. Ora, há muito tempo que o trabalho já não é fonte de auto-realização, de expressão das capacidades individuais, que não é sustentado por motivações pessoais. Para inverter esta situação é necessário que no topo das empresas se comece também a dar importância a estes temas e definir como uma das principais prioridades a meritocracia.
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Bruno Valverde Cota, Doutorado em Gestão de empresas e especialista em assuntos de Marketing e Comunicação
Comentários (23)
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Acções do PSI 20





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Em poucas palavras... leiam o manisfesto de MMS (Movimento Merito e Sociedade)...
Caro Professor,
Concordo plenamente com sua observação, nomeadamente a falta de ética existente entre os colegas de trabalho, "Já reparou que o trabalho nas empresas, de um modo geral, tornou-se num lugar agressivo, mau, esgotante, fonte de angústias e depressões ? O colega é sempre um inimigo potencial, a comunicação é falseada, não é autêntica e para se fazer carreira é de algum modo necessário boicotar a dos outros colegas......"
Abraços e parabens por mais este excelente artigo
Partilho de algumas das ideias aqui expressas. Não sou dos que pensam voltar ao período antes do muro de Berlim.
É chegado a hora para os cidadãos não se acomodarem e soltarem o espirito da irreverência controlada e fundamentada.
Na sociedade do conhecimento só teremos um Mundo mais justo e equilibrado se todos participarmos na justa medida dos factos e actos e soubermos apontar o dedo a quem tem tido a atitude menos correcta.
Três perguntinhas...
- Existe Meritocracia no BES?
- Não está o Professor Doutor Bruno Cota "no topo de uma empresa"?
- O que tem feito para mudar o BES para uma meritocracia?
Só espero que tenha força para continuar as suas lições de humildade e esperança. Que Deus o ajude!
Belíssimo e muito apropriado aos tempos que correm.
Dia 02 de Maio, pelas 16h, o Professor Doutor Bruno Cota estará a autografar livros na Feira do Livro!
Caro Bruno,
Concordo com as suas palavras e reconheço a importância da valorização pessoal no desenvolvimento organizacional, no entanto...
1) A importância da valorização pessoal será necessariamente diferente num contexto de produção de bens ou serviços;
2) Embora as directivas partam sempre das posições de liderança, é essencial considerar que nem todos os indivíduos têm motivação/ambição para se valorizarem pessoal e profissionalmente;
3) Por outro lado, poderá acontecer exactamente o inverso que é uma exagerada ambição pela valorização pessoal e profissional, e que poderá em determinados casos levar um indivíduo a conclusões exageradas sobre a sua real valia profissional.
No fim de tudo, concordo com o facto da valorização dos indivíduos num contexto profissional ser desejável e importante para o desenvolvimento organizacional (sobretudo na área dos serviços), mas como em todos os processos inovadores, considero ser importante abordar esta prática de gestão de forma ponderada e adequada a cada contexto.
Embora vivamos numa constante entropia profissional, a verdade é que a natureza humana não lida bem com variações repentinas; daí a necessidade de abordar cada problema/solução com as reservas próprias e naturais de um qualquer "instinto" de liderança moldado pelo tempo, pela ética e por uma inteligência prática e eficiente.
Citando Maquiavel, "(...)um homem que queira em tudo professar o bem arruina-se entre tantos que não são bons(...)".
Bom trabalho
Nuno Santos
Excelente ensaio sobre a cegueira!
Crítico e pedagógico!
Não podia reflectir melhor a realidade.
É mérito.
Forte abraço.
Somos o que somos pela educação e pelos exemplos que tivemos e temos. Vivemos numa sociedade que não se responsabiliza, que não premeia o mérito. Mas tenho a certeza que vai mudar, acredito nas pessoas de bem, que se esforçam. Acredito que o futuro tende a caminhar para trabalhar com verdade e ética, porque o contrário é simplesmente assustador. Excelente artigo, urgênte estes avisos à navegação.
Bruno,
Um artigo muito bom, como não podia deixar de ser...
Realmente meritocracia precisa-se!!!
Bem aplicado o caso da Susan Boyle ... é um exemplo claro de como na nossa sociedade são feitos juízos de valor antes de tempo e com base em tudo menos nas verdadeiras competências.
Excelente artigo, na linha dos anteriores.
Em Portugal o mérito passa ao lado....as coisas funcionam da seguinte forma: Diz-me com quem andas e dir-te-ei onde vais chegar.
Vivemos um lamaçal tão grande, que mesmo depois da crise....vamos continuar no lodo!!!
Doutor, com sempre excelente.
O seu artigo deveria ser lido pelos políticos; empresários; gestores etc., afim de aprenderem algo, Certo que as empresas; instituições, o Pais e o Mundo estaria completamente diferente. Parabéns
Muchas gracias por el artículo sobre MAQUIAVEL que parece muy adecuado para estos tiempos también.
O que Maquiavel "tentou vender" já não tem compradores na actualidade. Agora, o individulismo, o cinismo e o príncipios/valores são mais refinados ! E a falta de ética nos negócios fez "danos colateriais" superiores aos da guerra do Iraque. E os actores ainda são os mesmos, mesmo mudando de nomes e sorrisos !