A história do pensamento político encerra uma longa discussão sobre o papel da mentira na política. O autor mais conhecido nesta matéria é Maquiavel.
Em "O Príncipe" o pensador florentino chama a atenção para o facto de que o político que honre sempre a sua palavra está condenado ao fracasso e que, portanto, é mais sensato aquele que encobre a verdade e falta à palavra dada quando isso lhe é conveniente.
Mas a discussão sobre a verdade é muito mais antiga e remonta a Platão e à sua obra "A República". O filósofo ateniense não está preocupado, como Maquiavel, com as mentiras quotidianas dos políticos para manterem o seu poder, mas antes com aquilo que pode chamar-se "a mentira nobre". Esta consiste em levar o povo a acreditar num mito, numa estória, que, sendo embora falsa, tem o papel aparentemente louvável de propiciar a coesão social, para além de perpetuar a elite no poder.
Sabemos que Maquiavel é hoje seguido à risca e que, por exemplo, Passos Coelho ganhou as eleições à custa de uma série de mentiras instrumentais (tal como Sócrates, antes dele). Mas, mais importante do que isso, é compreendermos que estamos a viver, em Portugal e na Europa, num regime baseado na "mentira nobre" de que falava Platão.
O Governo repete até à exaustão que o programa de auxílio financeiro vai funcionar, que não precisaremos de novo resgate, que não vamos renegociar a dívida, etc. Mas os governantes sabem perfeitamente que tudo isso é mentira, insistindo em reproduzi-la de acordo com a convicção de que uma mentira repetida muitas vezes passa a ser tida como verdade.
Na Europa encontramos o mesmo mecanismo em relação à Grécia e ao próprio euro. Os agentes políticos e funcionários comunitários insistem que o programa grego vai funcionar e que estamos no caminho certo para ultrapassar a crise do euro. Mas também eles sabem que o novo programa grego - tal como o anterior - não vai funcionar e que a solução para o euro não foi ainda encontrada.
Para não gerar desconfiança social e para manter as actuais relações de poder, engana-se o povo em Portugal, tal como na Grécia, ou na Europa. Mais do que isso: as mentiras são tão repetidas que os próprios políticos e altos funcionários europeus já andam a enganar-se uns aos outros e, nos casos de maior ingenuidade, até a si mesmos.
Vivemos, portanto, num regime de "mentira nobre". Mas não esqueçamos que a "nobreza" da mentira é apenas uma invenção de Platão e não pode ser dissociada do seu profundo ódio ao regime democrático ateniense. Na Atenas clássica, tal como ao longo da história e também hoje em dia, o uso da "mentira nobre" caracteriza aqueles que, mesmo com roupagens democráticas, são os maiores inimigos da democracia.
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João Cardoso Rosas, Professor universitário
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na minha concepçao ficha-limpa irá vira mito... ou virá funcionar como nossa constituiçao, favoresser sempre os favorecidos do poder.