Num país em que, muito provavelmente, grande parte da mais alta classe política não sabe quantos cantos tem o “Felizmente há Luar” - se é que tem cantos, ou serão actos? - é saudável que a peça de Luís de Sttau Monteiro faça parte do programa de Português do 12º ano.
Mesmo tendo em conta que o autor entra na matéria do último período, isto é, por pouco não entrava. Mas, certamente por isso, o "Felizmente há Luar" também entrou no exame de Português do 12º ano: estava fresco, mesmo que apenas colado com cuspo, e proporcionava boas médias para apresentar na Europa. A opinião generalizada de alunos e professores é que a prova foi fácil.
E numa reportagem do Público uma aluna esclarecia a razão da "facilidade": em seu entender, "Felizmente Há Luar" "é muito simples, não tem muita simbologia, é tudo muito literal, basta saber a obra para saber responder". Ou seja, a jovem não percebeu, ou ninguém lhe explicou, que a execução do general Gomes Freire de Andrade e o apelo final da viúva à revolta contra a tirania, embora sendo factos passados, escritos pelo autor em 1961 constituíam uma vigorosa intervenção no seu tempo. "Muito literal"? Pois, pois. Até os coronéis da Censura perceberam o paralelismo.
Em matéria de memória Portugal faz por esquecer. Tudo começou porque havia democratas de fresca data com um passado de compromisso ou simplesmente de complacência com a tirania. E depois há as "conotações" da liberdade, incompatíveis com a vocação do autoritarismo. A memória é perigosa. Quem tem hoje memória, por exemplo, do que dizia, em 1992, ano da sua morte, o capitão Salgueiro Maia? Dizia que os capitães da sua geração, "implicados" no 25 de Abril, estavam a ser tratados pelo poder político como "marginais".
jpguerra@economicasgps.com
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