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Luís Rego

Martelar um acordo para uma foto feliz

22/02/12 00:03 | Luís Rego 



Chegar a acordo depois de uma epopeia negocial tem sempre um efeito tonificante nos mercados, mas costuma durar pouco tempo. Com esta nova salvação da Grécia não deverá ser muito diferente.

Aliás, a esperança de um acordo definitivo e estabilizador para Atenas acabou por ser posta em causa pelos próprios técnicos da ‘troika'. Num autêntico murro no estômago dos ministros do euro, os técnicos que têm vindo a espalhar a receita de austeridade pela periferia fizeram as contas para a Grécia e concluíram que, com as actuais políticas, é precisa muita imaginação para traçar um caminho que faça da Grécia uma economia sustentável em 2020.

Imaginação não faltou. Ao longo de 14 horas, baixaram um pouco os juros do primeiro resgate, cortaram os lucros da dívida grega detida pelos bancos centrais e elevou-se ligeiramente a factura dos privados na reestruturação. Tudo isto para reduzir o nível de dívida esperado para 2020 de 129% para 120,5% e, assim, conseguir cumprir a meta fixada pelos líderes, para justificar um corte de metade da dívida privada e mais um lote de 130 mil milhões.

Para perceber como os ministros martelaram toda a noite, basta olhar para a perspectiva de crescimento: uma estagnação em 2013 e depois crescimentos entre 2,5% e 2,9% até 2020. Isto num país que está há cinco anos em recessão e que ainda nem aplicou a parte mais dura da receita de austeridade. À ‘troika' parece ter-lhe fugido a boca para a verdade ao avisar os ministros que a "desvalorização interna (cortes nos salários e pensões) necessária para restaurar a competitividade grega vai inevitavelmente conduzir a um nível de dívida maior a curto prazo". Um alerta que também serve para Portugal.

Por outro lado, reconhece-se que o modelo de reestruturação montado é insuficiente: cortar apenas metade da dívida privada (100 em 350 mil milhões) deixa muita dívida a descoberto. Os incentivos para os credores e privilégios das novas obrigações gregas vão afastar novos investidores e tornar "improvável" o regresso da Grécia aos mercados durante muito tempo. Ainda segundo a ‘troika', se mais de 5% dos privados não aceitarem perder os 53,5% do valor inicial de dívida grega, o acordo derrapa. O mesmo ocorre se as reformas estruturais e o plano de privatizações não tiverem os ambiciosos resultados pretendidos.

Por outras palavras: isto vai ficar muito mais caro do que se tinha pensado. Logo a partir de 2014 deverão ser precisos mais 50 mil milhões, diz outra vez a própria ‘troika'. Com tantos ‘ses' é difícil acreditar que agora é que é. A tese do "poço sem fundo" - defendida por Berlim, Haia e Helsínquia - acaba por sair reforçada e, tendo em conta que vão ter de convencer os seus parlamentos nacionais a abrir os cordões à bolsa, a pressão para deixar cair a Grécia vai continuar em cima da mesa.
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Luís Rego
luis.rego@economico.pt




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