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Pedro Adão e Silva

Manual de instruções para campanhas negras

03/02/09 00:01 | Pedro Adão e Silva 



Há um equívoco muito generalizado: é mais fácil desenvolver uma campanha negra envolvendo um vizinho, um colega de trabalho ou mesmo um familiar.

Nada de mais errado. Não hesite, pense em grande. A evidência empírica revela que uma campanha bem orquestrada pode ser eficaz se dirigida a um artista de televisão com particular notoriedade ou até mesmo, pasme-se, a um político.

Após criteriosa selecção do alvo, há que passar à fase a que os especialistas chamam de contextualização. Esta, isoladamente, não produz qualquer efeito - razão porque foi, durante tanto tempo, menosprezada. Contudo, como revelam diversos casos de sucesso, é decisiva. Deve agora proceder à escolha da natureza da campanha. As acusações mais seguras continuam a ser o enriquecimento ilícito e tudo o que remeta para comportamentos sexuais. Se optar pela segunda hipótese, tenha presente que relações extra-conjugais têm taxas de sucesso marginais. Pelo contrário, há evidência empírica que demonstra a robustez de campanhas assentes em alegações de relações homossexuais ou até comportamentos sexuais desviantes. No passado, havia dois instrumentos preferenciais para a contextualização: as cartas anónimas e o "ouvi dizer". Se bem que estes mecanismos ainda revelem assinalável eficácia, as novas tecnologias abriram novas possibilidades. Escreva um ‘email' e ponha a circulá-lo. As caixas de comentários dos jornais ‘online', fóruns e ‘blogs' têm-se revelado particularmente úteis.
Seja paciente e aguarde dois, três anos. Não suspenda a sua actividade, aproveite este período para estabelecer alguns contactos (junto de "amplificadores selectivos) e, não menos importante, pesquise informação sobre o seu alvo, bem como os seus familiares. Recorra a um motor de busca na ‘net' e, se tiver recursos, utilize um serviço de ‘clipping'. A informação disponível vai surpreendê-lo. Nesta altura tem de insinuar-se junto dos "amplificadores selectivos". Há tipos preferenciais de amplificadores com quem convém desenvolver uma boa relação: um jornalista e alguém, no mínimo, com acesso à fotocopiadora no Ministério Público e/ou na Polícia Judiciária.

Chegou agora a fase decisiva. É o momento para a campanha se tornar visível. Se a contextualização tiver decorrido bem, até você se vai surpreender com os níveis de credulidade. Mesmo um facto com escassa solidez revelar-se-á verosímil. Não se preocupe muito com o modo como esse facto vai ser posto à prova. O mais provável é que não o seja e, caso isso aconteça, se ele tiver sido devidamente amplificado, pouco importa que venha a ser desconsiderado. O resultado pretendido já foi alcançado. Assim que tiver feito chegar a denúncia às autoridades, coloque rapidamente o "seu" jornalista ao corrente.

Tem agora uma semana para mobilizar toda a informação que entretanto recolheu e plantá-la criteriosamente junto dos media. Não se preocupe em estabelecer relações de causa e efeito, basta associar factos. Vai ver que funciona. Há também um princípio elementar: ainda que continue a privilegiar o jornalista que primeiro deu voz à campanha, é agora importante diversificar. Há um mecanismo que se tem revelado muito conseguido: dar uma notícia parcialmente a um jornal e completá-la com informação à noite numa televisão. Por esta altura, deverá existir um caldo cultural propício a envolver familiares. Avance.

O essencial do seu trabalho está feito. Tirando algumas intervenções cirúrgicas, a competição pelas audiências entre os media encarregar-se-á de fazer o resto. Assistirá a um fenómeno curioso: as notícias serão dadas várias vezes, como se se tratasse de novidade, mesmo que tenham sido desmentidas, e os órgãos de comunicação amplificarão as notícias uns dos outros, sem qualquer critério. Neste momento, o nome do seu alvo deve surgir invariavelmente associado a expressões como "suspeito", "arguido", "implicado", "envolvido". Ainda que na verdade não haja nenhum indício, é o momento em que os comentadores estarão a falar da fragilidade em que se encontra, da necessidade de se explicar ou, até, de colocar o lugar à disposição. Pode, em casa, assistir confortavelmente ao desenrolar da campanha.

Apesar da natureza simples deste tipo de campanha, os mais temerosos têm procurado saber quais são os riscos para os autores morais. A literatura refere alguns casos que se revelaram problemáticos. Contudo, são excepções e só foram deslindados muito tempo depois. O "protocolos dos Sábios de Sião", o caso Dreyfus e o de George Edalji em Inglaterra são disto exemplo. Mais recentemente, na Bélgica, as autoridades revelaram particular celeridade em desmontar a campanha movida contra o ex-ministro Elio di Rupo. Mas, para quem opera a partir da Europa do Sul, não há motivos para preocupação. A coligação entre aqueles que defendem o primado do Estado de direito é de tal modo frágil que, facilmente, serão derrotados pela sólida união entre péssimo jornalismo e investigação negligente.
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Pedro Adão e Silva, Professor universitário


Comentários

LOPES CARLOS, Bruxelas | 03/02/09 07:11
1. Não acredito em complots,cabalas, urdiduras, forças negras, campanhas negras,etc. Mas acredito em aproveitamentos politicos e em politização de processos judiciais.
2. Durante as Segundas Jornadas contra a corrupção organizadas pela extinta AACC ( Sr.Cor. Costa Bráz) foi distribuido um estudo referindo o que acontece aos denunciantes de actos de corrupção nos 5 anos seguintes à sua denuncia( e aos seus Familiares).Ler.


JJC, | 03/02/09 07:26
Muito bom artigo :)


FT, | 03/02/09 08:10
É legítimo pensar que desta vez, possamos estar perante algo de MUITO, MUITO, grande. Não vai ter nada (em termos de dimensão), com o que se passou em 2005. Aguardemos.


Rui Aguiar, Cascais | 03/02/09 08:41
Caro Pedro. Brilhante como sempre. É o mdesmontar mais perfeito e bem explicado de um assassínio político e de caracter. Espero sinceramente que o filme, por demais repetido, comece a perder a eficácia. Uma es ecie de "dejá vu".

Um abraço

Rui Aguiar


Jose Nunes, | 03/02/09 09:04
Será o Serious Fraud Office um agente amplificador?


F.Saldanha, cascais | 03/02/09 09:42
Quem está a ganhar com isto tudo são aqueles que não acreditam na chamada democracia burguesa.Esses é que estão na maior , esses é que estão a vencer em grande e a demonstrar á população do perigo que é viver num regime destes.


redactor de moção, | 03/02/09 09:45
Já agora seria útil que o sr. Pedro Adão e Silva escrevesse também um manual de instruções sobre campanhas brancas uma vez que parece tão entendido na matéria.


pedro, | 03/02/09 10:22
mentalidade de esquerda.


Maria Almeida, | 03/02/09 10:52
Excelente artigo. Há já poucos corajosos. É mais fácil sorrirmos complacentemente a esta onda, não vão envolver-nos nela.
Porque o meu lado continua a ser um repúdio enorme à calúnia, o meu agradecimento pela sua coragem.


Nsantos, | 03/02/09 11:12
Parece-me de um mediatismo exagerado e com objectivos cirurgicos, no entanto, vamos esperar para ver no que dá.
"...campanhas brancas..." não preferirá vermelhas?


maria, lisboa | 03/02/09 11:43
Sei do que fala, porque fui vitima duma campanhazinha destas no meu emprego, orientada por um grupelho do pior.É dificil a pessoa que é alvo duma coisa destas tentar sequer defender-se. Está a fazer-se de vitima, está a inventar perseguições, etc.etal.
Bom artigo.! Bom alerta.! Bom desmacaramento.!


jorge, | 03/02/09 14:11
"…coloque rapidamente o "seu" jornalista ao corrente." Foi o que o PS fez com o Sr., não foi? Pelo seu raciocínio, o 11 de Setembro também foi uma cabala feita pelo Bush, Rumsfeld e Cheney, ou não foi? Deixe de lavar mais branco que o OMO, porque fere muito as vistas com o reflexo de tanto passar o lustro!


dpsilva, Lisboa | 03/02/09 16:04
Estas campanhas são próprias do estalinismo e do fascismo, isto é, de regimes totalitários. Sei que nas democracias também as há, e de que maneira, como já se viu e vê, mas pelo menos nesta os atingidos têm mais hipóteses de se defender. De qualquer modo o alvo ficará sempre enlameado e essa é a vitória dos cobardes. Ontem vi os prós e contras e foi visível a má fé dos acusadores. Mas quando se perguntava qual a saída, ninguém sabia. Pois eu sei. Dê-se a palavra ao povo suberano. Vamos a isso, já! É o vais. O que é preciso é ir chamuscando a vítima em lume brando. Mesmo assim, ou muito me engano, ou vão ter a resposta que merecem os cobardes.


leitora, | 03/02/09 18:10
Inteligente e oportuno artigo.!


Mrrm, | 03/02/09 20:06
Curisoso, acabo de receber no e-mail a famosa carta rogatória. Já vem traduzida para Português, mas o tradutor, para além de não assinar, esqueceu-se de várias notas de tradução. No Reino Unido não há a figura do arguido, para começar. Depois a construção de frases denota um trabalho de amador. Mas enviar, hoje, a cartita pela Internet, faz jus aqui a este artigo. A origem veio de simpatizantes do BE, que não se importam assim dumas picadelas de vez em quando, mas o mais povável é eles terem ido buscar isto alhures, pelo que a pista também não vale quase nada. Vale como amplificador. A campanha tem um alvo, ejá tem uma primeira vítima, que é a Justiça em Portugal. E esta pos-se a jeito. A PJ diz que prosseguiu o inquérito, mas não deve ter sido com muito estusiasmo, pois passaram 4 anos e está tudo na mesma. Se tivessem o entusiasmo dos que acusam sem provas é que era mais giro.
MMartins-Sintra


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