Há um equívoco muito generalizado: é mais fácil desenvolver uma campanha negra envolvendo um vizinho, um colega de trabalho ou mesmo um familiar.
Nada de mais errado. Não hesite, pense em grande. A evidência empírica revela que uma campanha bem orquestrada pode ser eficaz se dirigida a um artista de televisão com particular notoriedade ou até mesmo, pasme-se, a um político.
Após criteriosa selecção do alvo, há que passar à fase a que os especialistas chamam de contextualização. Esta, isoladamente, não produz qualquer efeito - razão porque foi, durante tanto tempo, menosprezada. Contudo, como revelam diversos casos de sucesso, é decisiva. Deve agora proceder à escolha da natureza da campanha. As acusações mais seguras continuam a ser o enriquecimento ilícito e tudo o que remeta para comportamentos sexuais. Se optar pela segunda hipótese, tenha presente que relações extra-conjugais têm taxas de sucesso marginais. Pelo contrário, há evidência empírica que demonstra a robustez de campanhas assentes em alegações de relações homossexuais ou até comportamentos sexuais desviantes. No passado, havia dois instrumentos preferenciais para a contextualização: as cartas anónimas e o "ouvi dizer". Se bem que estes mecanismos ainda revelem assinalável eficácia, as novas tecnologias abriram novas possibilidades. Escreva um ‘email' e ponha a circulá-lo. As caixas de comentários dos jornais ‘online', fóruns e ‘blogs' têm-se revelado particularmente úteis.
Seja paciente e aguarde dois, três anos. Não suspenda a sua actividade, aproveite este período para estabelecer alguns contactos (junto de "amplificadores selectivos) e, não menos importante, pesquise informação sobre o seu alvo, bem como os seus familiares. Recorra a um motor de busca na ‘net' e, se tiver recursos, utilize um serviço de ‘clipping'. A informação disponível vai surpreendê-lo. Nesta altura tem de insinuar-se junto dos "amplificadores selectivos". Há tipos preferenciais de amplificadores com quem convém desenvolver uma boa relação: um jornalista e alguém, no mínimo, com acesso à fotocopiadora no Ministério Público e/ou na Polícia Judiciária.
Chegou agora a fase decisiva. É o momento para a campanha se tornar visível. Se a contextualização tiver decorrido bem, até você se vai surpreender com os níveis de credulidade. Mesmo um facto com escassa solidez revelar-se-á verosímil. Não se preocupe muito com o modo como esse facto vai ser posto à prova. O mais provável é que não o seja e, caso isso aconteça, se ele tiver sido devidamente amplificado, pouco importa que venha a ser desconsiderado. O resultado pretendido já foi alcançado. Assim que tiver feito chegar a denúncia às autoridades, coloque rapidamente o "seu" jornalista ao corrente.
Tem agora uma semana para mobilizar toda a informação que entretanto recolheu e plantá-la criteriosamente junto dos media. Não se preocupe em estabelecer relações de causa e efeito, basta associar factos. Vai ver que funciona. Há também um princípio elementar: ainda que continue a privilegiar o jornalista que primeiro deu voz à campanha, é agora importante diversificar. Há um mecanismo que se tem revelado muito conseguido: dar uma notícia parcialmente a um jornal e completá-la com informação à noite numa televisão. Por esta altura, deverá existir um caldo cultural propício a envolver familiares. Avance.
O essencial do seu trabalho está feito. Tirando algumas intervenções cirúrgicas, a competição pelas audiências entre os media encarregar-se-á de fazer o resto. Assistirá a um fenómeno curioso: as notícias serão dadas várias vezes, como se se tratasse de novidade, mesmo que tenham sido desmentidas, e os órgãos de comunicação amplificarão as notícias uns dos outros, sem qualquer critério. Neste momento, o nome do seu alvo deve surgir invariavelmente associado a expressões como "suspeito", "arguido", "implicado", "envolvido". Ainda que na verdade não haja nenhum indício, é o momento em que os comentadores estarão a falar da fragilidade em que se encontra, da necessidade de se explicar ou, até, de colocar o lugar à disposição. Pode, em casa, assistir confortavelmente ao desenrolar da campanha.
Apesar da natureza simples deste tipo de campanha, os mais temerosos têm procurado saber quais são os riscos para os autores morais. A literatura refere alguns casos que se revelaram problemáticos. Contudo, são excepções e só foram deslindados muito tempo depois. O "protocolos dos Sábios de Sião", o caso Dreyfus e o de George Edalji em Inglaterra são disto exemplo. Mais recentemente, na Bélgica, as autoridades revelaram particular celeridade em desmontar a campanha movida contra o ex-ministro Elio di Rupo. Mas, para quem opera a partir da Europa do Sul, não há motivos para preocupação. A coligação entre aqueles que defendem o primado do Estado de direito é de tal modo frágil que, facilmente, serão derrotados pela sólida união entre péssimo jornalismo e investigação negligente.
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Pedro Adão e Silva, Professor universitário
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1. Não acredito em complots,cabalas, urdiduras, forças negras, campanhas negras,etc. Mas acredito em aproveitamentos politicos e em politização de processos judiciais.
2. Durante as Segundas Jornadas contra a corrupção organizadas pela extinta AACC ( Sr.Cor. Costa Bráz) foi distribuido um estudo referindo o que acontece aos denunciantes de actos de corrupção nos 5 anos seguintes à sua denuncia( e aos seus Familiares).Ler.
Muito bom artigo :)
É legítimo pensar que desta vez, possamos estar perante algo de MUITO, MUITO, grande. Não vai ter nada (em termos de dimensão), com o que se passou em 2005. Aguardemos.
Caro Pedro. Brilhante como sempre. É o mdesmontar mais perfeito e bem explicado de um assassínio político e de caracter. Espero sinceramente que o filme, por demais repetido, comece a perder a eficácia. Uma es ecie de "dejá vu".
Um abraço
Rui Aguiar
Será o Serious Fraud Office um agente amplificador?
Quem está a ganhar com isto tudo são aqueles que não acreditam na chamada democracia burguesa.Esses é que estão na maior , esses é que estão a vencer em grande e a demonstrar á população do perigo que é viver num regime destes.
Já agora seria útil que o sr. Pedro Adão e Silva escrevesse também um manual de instruções sobre campanhas brancas uma vez que parece tão entendido na matéria.
mentalidade de esquerda.
Excelente artigo. Há já poucos corajosos. É mais fácil sorrirmos complacentemente a esta onda, não vão envolver-nos nela.
Porque o meu lado continua a ser um repúdio enorme à calúnia, o meu agradecimento pela sua coragem.
Parece-me de um mediatismo exagerado e com objectivos cirurgicos, no entanto, vamos esperar para ver no que dá.
"...campanhas brancas..." não preferirá vermelhas?
Sei do que fala, porque fui vitima duma campanhazinha destas no meu emprego, orientada por um grupelho do pior.É dificil a pessoa que é alvo duma coisa destas tentar sequer defender-se. Está a fazer-se de vitima, está a inventar perseguições, etc.etal.
Bom artigo.! Bom alerta.! Bom desmacaramento.!
"…coloque rapidamente o "seu" jornalista ao corrente." Foi o que o PS fez com o Sr., não foi? Pelo seu raciocínio, o 11 de Setembro também foi uma cabala feita pelo Bush, Rumsfeld e Cheney, ou não foi? Deixe de lavar mais branco que o OMO, porque fere muito as vistas com o reflexo de tanto passar o lustro!
Estas campanhas são próprias do estalinismo e do fascismo, isto é, de regimes totalitários. Sei que nas democracias também as há, e de que maneira, como já se viu e vê, mas pelo menos nesta os atingidos têm mais hipóteses de se defender. De qualquer modo o alvo ficará sempre enlameado e essa é a vitória dos cobardes. Ontem vi os prós e contras e foi visível a má fé dos acusadores. Mas quando se perguntava qual a saída, ninguém sabia. Pois eu sei. Dê-se a palavra ao povo suberano. Vamos a isso, já! É o vais. O que é preciso é ir chamuscando a vítima em lume brando. Mesmo assim, ou muito me engano, ou vão ter a resposta que merecem os cobardes.
Inteligente e oportuno artigo.!
Curisoso, acabo de receber no e-mail a famosa carta rogatória. Já vem traduzida para Português, mas o tradutor, para além de não assinar, esqueceu-se de várias notas de tradução. No Reino Unido não há a figura do arguido, para começar. Depois a construção de frases denota um trabalho de amador. Mas enviar, hoje, a cartita pela Internet, faz jus aqui a este artigo. A origem veio de simpatizantes do BE, que não se importam assim dumas picadelas de vez em quando, mas o mais povável é eles terem ido buscar isto alhures, pelo que a pista também não vale quase nada. Vale como amplificador. A campanha tem um alvo, ejá tem uma primeira vítima, que é a Justiça em Portugal. E esta pos-se a jeito. A PJ diz que prosseguiu o inquérito, mas não deve ter sido com muito estusiasmo, pois passaram 4 anos e está tudo na mesma. Se tivessem o entusiasmo dos que acusam sem provas é que era mais giro.
MMartins-Sintra