O novo Governo ainda nem sequer aqueceu a cadeira e já vai anunciar hoje novas medidas de austeridade? Ontem, ao final do dia, fonte do gabinete do primeiro-ministro dizia que Passos Coelho poderia anunciar, no seu discurso de estreia hoje no Parlamento, a antecipação de algumas medidas previstas no memorando de entendimento e eventualmente a adopção de novas medidas com carácter extraordinário.
Aumento da taxa normal do IVA? Antecipação do reescalonamento das taxas mínima e intermédia do IVA? Criação de um novo imposto extraordinário sobre o IRS?
A confirmar-se, uma nova medida ou a antecipação de alguma medida de austeridade, é uma péssima notícia. Das duas uma: ou o Governo sabe alguma coisa que nós não sabemos sobre as contas públicas, o que na linguagem de Passos Coelho quer dizer encontrar "esqueletos no armário"; ou o Governo não acredita que o ‘timing' e as medidas acordadas com a ‘troika' sejam suficientes para cumprir as metas do défice. Qualquer uma destas hipóteses é preocupante.
É verdade que se Passos tiver que tomar alguma medida impopular esta é a melhor altura, enquanto dura o seu estado de graça e enquanto o PS reagrupa as tropas. Mas também é verdade que implementar austeridade só para impressionar os mercados e estrangular a economia não tem dado resultado, e a Grécia é prova disso.
...e cocktails Molotov na Grécia
E já são seis os planos de austeridade apresentados na Grécia e nem por isso os juros regressaram a níveis aceitáveis. Ontem foi aprovado mais um. Enquanto Bruxelas e os líderes europeus regozijavam com a aprovação no Parlamento, nas ruas milhares de gregos atiravam cocktails Molotov aos polícias a protestar contra essa mesma austeridade.
Diz-se que a expressão cocktails Molotov surgiu quando, em 1939, os soviéticos estavam a fazer bombardeamentos aéreos na Finlândia. Foi então que um diplomata russo, um tal de Vyacheslav Molotov, fez uma comunicação na rádio a dizer que os soviéticos não estavam a atirar bombas, mas sim a atirar cestas de pão aos finlandeses mais pobres. Surgiu então a expressão ‘Molotov bread baskets'. Os finlandeses, com o seu peculiar sentido de humor, terão então começado a atirar garrafas de vidro com líquidos inflamáveis aos tanques russos a que chamaram, ironicamente, ‘cocktails Molotov' para, segundo eles, acompanhar os supostos alimentos que estavam a ser atirados pela aviação russa.
E é isto o que a Europa está a fazer à Grécia. Bombardear a Grécia com austeridade, tentando convencer os gregos que austeridade é uma coisa boa. No último ano, já ficou mais do que provado que austeridade pela austeridade, sem medidas de apoio à economia, não dá grande resultado.
E Portugal não deve cair na tentação de seguir a estratégia económica do cocktail Molotov. Já se viu pela Grécia que é explosiva.
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Pedro Sousa Carvalho, Subdirector
pedro.carvalho@economico.pt
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