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24/10/13 00:06
António Gomes Mota

Maiores empresas

António Gomes Mota

Há uma acrescida atenção, que se entende bem, nas PME enquanto motor do crescimento económico. No entanto e porventura paradoxalmente, cuidar melhor das PME passa também por centrar acrescida atenção nas grandes empresas.

No nosso tecido empresarial seria importante desenvolver e disseminar uma cultura de elevador, uma ambição permanente de transformar pequenas em médias empresas e médias em grandes empresas. Infelizmente, pouca atenção se tem dado à relevância da escala como motor do desenvolvimento económico. Maior dimensão possibilita a criação ou o aprofundamento de funções corporativas que aportam visão, estratégia e valor ás organizações, criando-se maior e melhor capacidade de intervenção na prospecção de mercados, no desenvolvimento e upgrading de produtos e serviços e na angariação de recursos.

Num contexto em que se defende e bem, as exportações como motor de crescimento, a escala é, novamente, um elemento decisivo e num duplo sentido. Em primeiro lugar porque, aspecto recorrentemente ignorado, o que verdadeiramente conta para o crescimento não é simplesmente o aumento das exportações, mas o aumento das exportações líquidas de importações o que é coisa diferente. E esse desiderato é sobretudo atingido exportando-se mais e ao mesmo tempo subindo-se na cadeia de valor, retendo uma maior margem (em Portugal) de remuneração dos elementos próprios e distintivos (marca, inovação) de cada empresa.

A escala potencia esta subida na cadeia de valor como cria, em segundo lugar, outras condições para a penetração nos mercados externos onde é importante haver capacidade para se construírem paulatinamente redes de distribuição e comercialização menos dependentes de intermediários dominantes e capacidade para se aguentarem margens mais estreitas, típicas na fase inicial de entrada num novo mercado, a par de dificuldades de cobrança decorrentes de um menor conhecimento de mercado. E, finalmente, a escala é decisiva para possibilitar a evolução mais decisiva e estrutural de uma empresa no mercado externo, passar de unidade meramente exportadora para unidade internacionalizada, com meios e operações localizados no exterior.

Independentemente das crises, a pujança das grandes empresas são decisivas para muitas PME que não trabalham para o mercado final, mas são sim unidades de produção intermédia, tendo nas grandes empresas os seus principais clientes. Tem havido, recentemente, alguns casos muito interessantes, que podem e devem ser apoiados, de se procurar levar este efeito de rede até ao exterior, funcionando a grande empresa como porta de entrada de vários dos seus fornecedores nos mercados em que opera.

Uma economia próspera necessita, para densificar a sua malha empresarial, de mais e maiores empresas. As políticas públicas devem, sem complexos, explorar todos mecanismos e instrumentos para apoiar esse objectivo, assim como se terá de desenvolver uma visão diferente de partilha de poder dos detentores do capital que, mesmo sendo ágeis, modernos e inovadores no terreno do negócio têm frequentemente uma enorme dificuldade em prescindir do controlo quase absoluto da unidade que criaram e que, em tantos casos, é a barreira mais relevante para o seu crescimento.

António Gomes Mota, Professor na ISCTE Business School

 

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